Antes de 1948, os moradores de Sofia compravam alimentos em uma rede muito diferente da atual: mercados a céu aberto, mercearias de bairro, leiterias, padarias a lenha, pequenas lojas de delicatessen, mercados cobertos e estabelecimentos familiares onde o vendedor conhecia seus clientes pelo nome. As memórias abaixo percorrem esse sistema de abastecimento e mostram como a guerra, o racionamento e a nacionalização mudaram completamente a vida comercial da cidade.

O que mudou em 1948

Depois da consolidação do novo regime político, grandes propriedades urbanas foram nacionalizadas e o comércio privado sofreu restrições profundas. Atividades de atacado e varejo foram reorganizadas e muitas lojas particulares desapareceram. Até as bancas privadas de jornais foram substituídas por uma rede estatal de distribuição.

Novas siglas entraram no vocabulário cotidiano: NARMAG, PRODMAG e KHOREMAG passaram a designar estabelecimentos comerciais e de alimentação controlados pelo sistema estatal. Para quem havia crescido numa cidade de comerciantes independentes, a mudança foi brusca.

Uma cidade que dependia da estação de cada alimento

O Zhenski Pazar era um dos grandes centros de frutas e verduras. Mas, antes da popularização de estufas e importações regulares, cada produto tinha sua época. Alface, cebola fresca e rabanete apareciam quando o clima permitia; frutas maduras chegavam em sua estação e depois desapareciam por meses.

As famílias passavam o inverno com picles e conservas e aguardavam com expectativa o retorno dos produtos frescos. Essa sazonalidade marcava o calendário doméstico.

O Zhenski Pazar em setembro

Em uma descrição posterior, o autor convida o leitor a imaginar um passeio pelo Mercado Central das Mulheres em setembro. Bancas inteiras exibiam tomates vermelhos e rosados, pimentões de diferentes cores, berinjelas roxo-escuras, pepinos, ervilhas, espinafre, feijões verdes e amarelos.

Do outro lado apareciam abóboras, abobrinhas, talos de aipo, nabos, saladas e uma variedade de frutas. Pêssegos, damascos, melões, morangos, cerejas, peras, maçãs e ameixas davam ao mercado uma aparência quase pictórica.

Pequenas mesas de vendedoras mais velhas ofereciam ervas e temperos usados tanto na cozinha diária quanto na preparação das conservas de inverno: segurelha, manjericão, orégano, endro, salsa, hortelã, alecrim e diferentes tipos de pimenta.

Uvas, vinho e rakia

As bancas de frutas também exibiam uvas de variedades locais, entre elas o moscatel de Karlovo. As uvas eram consumidas frescas, mas também transformadas em suco, vinho e rakia de uva, uma das bebidas mais tradicionais da Bulgária.

Para o autor, a qualidade desses alimentos vinha da combinação entre solo, água, clima e técnicas transmitidas dentro das famílias.

A bolsa de verduras do Boulevard Hristo Botev com Slivnitsa

Grande parte dos produtos destinados às lojas chegava primeiro à bolsa de verduras situada no encontro do Boulevard Hristo Botev com Slivnitsa. Comerciantes atacadistas de várias regiões levavam mercadorias até os grandes galpões.

Dali, frutas e verduras eram distribuídas em carroças ou em carrinhos manuais até as pequenas lojas especializadas, conhecidas como zarzavatchiynitsi. Na rua do autor, Bai Krastyu vendia diretamente do próprio carrinho e o guardava à noite no pátio da Rua Bratya Miladinovi nº 60.

As mercearias de bairro

Cada mahala costumava ter uma ou duas mercearias. Nelas se compravam açúcar, farinha, sêmola, arroz, feijão, lentilha, óleo, manteiga, banha, amido e temperos.

Na vizinhança do autor havia a mercearia do tio Evlogi e do irmão, além de outra na esquina com a Rua Santos Cirilo e Metódio e uma terceira na Rua Tsar Simeon nº 114, pertencente ao tio Nubar, um armênio já idoso.

Muitos produtos eram vendidos a granel. O comerciante usava grandes pás de madeira para encher sacos de papel com farinha, arroz ou outros gêneros.

O “Gabrovetza” e a pequena loja de delicatessen

Conservas, embutidos, queijos e kashkaval podiam ser comprados na pequena loja de um comerciante conhecido como “o homem de Gabrovo”, situada na Rua Tsar Simeon, perto da padaria a vapor.

O proprietário, de rosto redondo e bochechas vermelhas, atendia pessoalmente. Vendia halva de tahine com chocolate, peixes em conserva, linguiças e outros produtos considerados especiais. Quando alguém comprava salsichas, ele colocava no pacote uma pequena caixinha de mostarda como presente.

A leiteria de Gosho

A dez ou quinze metros dali ficava a leiteria de Gosho. Vendia leite fresco de vaca e de ovelha, iogurte com uma camada espessa de creme e outros produtos lácteos.

Quem ainda não tivesse tomado café da manhã podia pedir uma tigela de porcelana com iogurte de ovelha, acompanhada de pão ou banitsa, e comer numa das poucas mesas do estabelecimento.

Muitas décadas depois, o autor reconheceu na Rua Tsar Simeon uma senhora idosa que lhe lembrava fortemente o antigo leiteiro. Perguntou se ela era filha de Gosho. A mulher apontou para a loja onde funcionara a leiteria e confirmou. Os dois se emocionaram com a ideia de que, setenta anos depois, alguém ainda se lembrava do pai e do sabor de seu iogurte.

Baba Mara, a fábrica Kabo e os restos de casquinha de sorvete

Nos números 122 ou 124 da Rua Tsar Simeon havia uma pequena quitanda administrada por Baba Mara. Em frente ficava a fábrica de meias Kabo. Num pátio próximo eram produzidas casquinhas para sorvete.

As crianças compravam por pouco dinheiro as casquinhas quebradas e os pedaços de wafer descartados na produção — uma guloseima barata criada a partir do que, para a fábrica, era simplesmente sobra.

A padaria de Bore e a primeira padaria a vapor

Entre o mercado e o Boulevard Hristo Botev havia duas padarias. A de Bore era tradicional: o forno era aquecido com grandes toras de faia. O pão branco saía leve, macio e aromático, e o cheiro se espalhava por vários quarteirões.

No início da década de 1940, uma nova cooperativa residencial foi construída entre a leiteria de Gosho e a loja do Gabrovetza. Num dos espaços do térreo abriu uma padaria moderna cuja fornalha era aquecida a vapor. O pão era considerado bom, mas, na opinião do memorialista, nunca alcançou o sabor do pão assado a lenha por Bore.

As grandes lojas perto da Praça Santa Nedelya

No centro da cidade, ao redor da Praça Santa Nedelya, funcionavam grandes lojas de alimentos e delicatessen. Estabelecimentos como Tevekeliev, Dokuzanov e Karamanlis eram conhecidos pela variedade de frutas, verduras, embutidos, peixes, frutos do mar e caviar.

A loja de chocolates Velizar Peev

Perto do Banho Central ficava a loja oficial da marca Velizar Peev. Chocolates, bombons, biscoitos e doces enchiam as vitrines e eram objeto de desejo das crianças.

Além da Peev, outras marcas búlgaras produziam chocolate de alta qualidade. O memorialista recorda especialmente um chocolate aerado fabricado pela Beraha, que em sua memória permanecia superior a muitos produtos estrangeiros provados depois.

Banitsa, burek e o cheiro da padaria Otechestvo

Sofia tinha muitas padarias especializadas em lanches: burek, banitsa, pequenos folhados com manteiga e queijo, kozunak e diferentes pães doces.

Na Praça Santa Nedelya funcionava a padaria Otechestvo, cujo aroma, segundo a lembrança, se espalhava por toda a região central.

O Mercado Central antes da grande reforma

Os Mercados Centrais tinham papel decisivo no abastecimento da cidade. A distribuição interna era muito diferente da atual. O segundo pavimento surgiu apenas depois de uma grande reconstrução; lojas de roupas, bancos, souvenirs e eletrônicos não faziam parte do mercado original.

No centro ficavam bancas de frutas e verduras, frutas secas e castanhas. Ao longo da parede oeste havia acesso aos açougues. Os moradores compravam carne bovina, vitela, porco, carneiro e cordeiro frescos. Carcaças inteiras pendiam nos ganchos; o cliente apontava o corte desejado, o açougueiro separava a peça, pesava e embrulhava.

Carne congelada era praticamente desconhecida para grande parte dos consumidores. Miúdos tinham bancas próprias, e peixes e frutos do mar eram vendidos em áreas isoladas voltadas para a Rua Exarch Joseph.

O abastecimento dos boxes era feito principalmente durante a noite, por acessos de serviço que permitiam descarregar mercadorias sem bloquear o movimento diurno.

Café Bulgaria: onde a elite de Sofia tomava café

Entre as confeitarias, o Café Bulgaria ocupava posição especial. Ali se encontravam banqueiros, grandes comerciantes, pessoas ligadas ao Palácio, ministros, deputados e artistas bem-sucedidos.

Trabalhadores comuns raramente entravam. Não era apenas uma questão de preço; havia uma fronteira social implícita. Para as famílias dos bairros, existiam dezenas de cafés, pequenas confeitarias, tavernas e restaurantes mais próximos.

Depois de setembro de 1944, essa barreira social mudou. O autor entrou no Café Bulgaria pela primeira vez com os pais e, na década de 1950, o restaurante tornou-se um de seus lugares preferidos.

Pachev, Luxor, Prague, Bambuka e outros cafés desaparecidos

Outros estabelecimentos de prestígio completavam o mapa social: Pachev, na esquina de Dondukov com Targovska; Luxor, próximo a Tsar Osvoboditel e Budapesta; Prague, na Rua Rakovska; Bambuka, perto do Teatro Nacional; Budapest e Warsaw; e o Café Berlin, nas proximidades do Monumento a Vasil Levski.

O racionamento durante a guerra

No fim de 1940, a introdução do sistema de cupons esvaziou rapidamente muitas lojas. O mercado negro cresceu e as famílias passaram a comprar diretamente de produtores rurais.

Homens de Sofia pedalavam aos domingos até aldeias próximas como Trebich, Maslovo, Shiyakovtsi, Mramor e Mirovyane. Depois de quarenta ou cinquenta quilômetros, às vezes sob chuva ou vento contrário, voltavam carregando carne, queijo fresco, óleo, verduras e eventualmente frutas.

Para as crianças, a chegada dessas mochilas era comparável à abertura da caverna de Ali Babá.

Anos sem bananas, laranjas ou tangerinas

Depois de 1944, alguns produtos importados praticamente desapareceram. Durante anos, muitas crianças de Sofia esqueceram o sabor de bananas, laranjas e tangerinas. Abacaxi e manga podiam ser apenas nomes desconhecidos, sem imagem concreta associada.

Ao mesmo tempo, o memorialista idealiza o sabor das frutas e verduras búlgaras daquele período, lembradas como intensas, sazonais e cultivadas de maneira muito diferente da produção posterior.

Embutidos e conservas feitos em casa

Com salsichas e embutidos escassos nas lojas, muitas famílias passaram a produzir sudzhuk, lukanka e pastarma em casa. As peças eram secas em sótãos e porões, onde também ficavam os estoques de inverno.

Doces, marmeladas, conservas de frutas e grande variedade de picles eram guardados em barris de madeira, potes de vidro e recipientes esmaltados. Plástico ainda não fazia parte da rotina doméstica.

Revistas de economia doméstica publicavam receitas, e donas de casa competiam amigavelmente para ver quem fazia o melhor bolo ou o kozunak mais alto para a Páscoa.

Comer também era parte da vida social

Os antigos moradores de Sofia gostavam de restaurantes, cervejarias familiares e confeitarias tanto quanto as gerações posteriores. Crianças adoravam bolos, boza gelada e sobremesas frias.

Nos grandes feriados, cada família preparava aquilo que podia: banitsa, baklava, pães ornamentados e kozunak. O abastecimento podia mudar com guerras, regimes e crises, mas a mesa continuava ocupando um lugar central na vida da cidade.