A passagem de 1938 para 1939 foi registrada pela imprensa de Sofia como uma noite em que toda a capital parecia estar em movimento. Ruas e lojas lotadas durante o dia deram lugar a bailes, restaurantes, cinemas, clubes profissionais e reuniões domésticas. O centro simbólico da comemoração foi o Clube Militar, onde a família real apareceu pouco antes da meia-noite.
O último dia de 1938
Desde a manhã, as grandes ruas e avenidas estavam cheias de pessoas comprando alimentos, presentes e tudo o que seria necessário para a festa. A imprensa observava que havia muito tempo o comércio não via movimento semelhante. Lojas de brinquedos, joalherias e confeitarias permaneceram abertas até tarde para atender a clientela.
À medida que a noite caía, o fluxo mudava. Pessoas bem vestidas seguiam em direção a salões, restaurantes e festas particulares. Risos e música eram ouvidos em vários pontos da cidade, mas a celebração mais solene ocorria no Clube Militar, seguindo uma tradição já estabelecida.
O Clube Militar preparado para o baile
Por volta das dez da noite, a entrada principal estava decorada e guardas formavam um corredor de recepção. O grande salão havia sido enfeitado com folhagens e bandeiras. No palco, a Orquestra Sinfônica Real, conduzida pelo maestro Sasho Popov e tendo Vasko Stefanov como spalla, aguardava o início do programa.
Os monogramas dos membros da família real apareciam iluminados no palco. Abaixo deles estavam os números do novo ano, 1939, ainda apagados à espera da meia-noite.
Às 22h30, oficiais começaram a ocupar o salão, todos em uniforme de gala e com suas condecorações. As mulheres, segundo a reportagem, haviam se preparado com grande cuidado para aquele que era descrito como o maior baile búlgaro. Vestidos, joias e penteados eram tratados pela imprensa como parte da própria cerimônia.
Diplomatas, ministros e convidados
À medida que o salão enchia, chegavam representantes de diferentes setores da sociedade. Diplomatas estrangeiros apareciam um após outro. Entre os nomes registrados estavam o representante britânico Rendell, o marquês Talamo, representante italiano, Maxa, da Tchecoslováquia, Berker, da Turquia, além de integrantes das missões francesa e de outros países.
Também chegaram ministros búlgaros, liderados pelo presidente do Conselho, Georgi Kyoseivanov, acompanhado da família. O ambiente reunia oficiais, políticos, diplomatas e convidados da vida pública da capital.
A chegada do czar e da família real
Pouco antes da meia-noite, o corredor central foi aberto. O czar Boris III entrou usando uniforme de general, acompanhado da rainha. Logo depois vieram o príncipe Kiril, também em uniforme militar, e a princesa Eudoxia.
A família real ocupou os lugares reservados e cumprimentou ministros, diplomatas, antigos membros do governo e conhecidos. A tensão cerimonial aumentava à medida que o relógio se aproximava da virada.
Tiros de canhão à meia-noite
Quando chegou a meia-noite, as luzes foram apagadas. Do lado de fora ouviram-se tiros de canhão. O salão mergulhou em silêncio para a mensagem de Ano-Novo do czar.
As últimas palavras foram seguidas pela execução de Shumi Maritsa e do hino real. Um longo “hurra” tomou o salão. Boris III, emocionado, pediu novamente a palavra e fez uma breve invocação: que Deus concedesse ao valente povo búlgaro um futuro luminoso. Outro grito coletivo respondeu.
Ministros e diplomatas erguiam taças. O czar desceu para cumprimentar os presentes, desejando feliz Ano-Novo e apertando as mãos de políticos, diplomatas, generais e conhecidos. A rainha, o príncipe Kiril e a princesa Eudoxia fizeram o mesmo. Por volta de 00h30, a família real deixou o Clube Militar, acompanhada até a saída pelos oficiais.
À uma da manhã, começavam as danças
Depois da partida da família real, o baile entrou em sua fase mais descontraída. Por volta de uma da manhã, as danças começaram. Pequenos círculos de conversa se formavam no salão, e a imprensa destacou especialmente o grupo de jornalistas búlgaros e estrangeiros.
Festa no salão Bulgaria
No salão Bulgaria, cooperativistas receberam o novo ano em reunião própria. À meia-noite, Hristo Ganev, presidente da União Nacional das Cooperativas Búlgaras, saudou os presentes e fez um breve balanço econômico e político de 1938, concluindo que não havia razão para lamentar o ano que terminava.
Artistas do Teatro Nacional participaram do programa, entre eles G. Belev, Karova e Kamburov. A festa continuou até a manhã.
Cinema Balkan e festas pela cidade
O Cinema Balkan e seus foyers também receberam grande público. Segundo a reportagem, as mulheres eram maioria. Depois do filme, artistas circenses apresentaram números especiais, houve loteria e a comemoração seguiu até o amanhecer.
Em Batemberg, Slavyanska Beseda e nos restaurantes de Sofia, grupos organizados ou simplesmente mesas de amigos atravessaram a noite com dança, jogos e vinho tinto. A reportagem descreve a expectativa comum a jovens e velhos: saúde, dinheiro, felicidade e a esperança de que o dia seguinte seria melhor que o anterior.
Os funcionários dos Correios
A alta administração dos Correios reuniu-se na biblioteca da Direção. O subdiretor Ivan Katsarov apresentou saudações em nome do ministro Avramov e do diretor-geral Yankov. Por volta de uma da manhã, o próprio Yankov apareceu para cumprimentar os presentes. Às 3h30, o ministro Avramov também passou pelo encontro e desejou maior dedicação ao desenvolvimento dos serviços.
A festa dos ferroviários
Os chefes do sistema ferroviário encontraram-se com suas famílias nos salões da Casa dos Ferroviários por volta das onze da noite. O subdiretor Sgurev fez a primeira saudação. Às 00h30, o diretor das Ferrovias Estatais Búlgaras, Kolchev, apareceu pessoalmente. Meia hora depois chegou o ministro Avramov.
Rádio Sofia enviou felicitações em 23 idiomas
Às 00h20, Rádio Sofia transmitiu saudações de Ano-Novo em 23 idiomas. As mensagens eram acompanhadas pelo toque de sinos de grandes igrejas catedrais. A saudação em búlgaro vinha com os sinos da Catedral Alexander Nevsky e aparecia em terceiro lugar na sequência de idiomas.
Jornalistas na Casa das Artes e da Imprensa
Jornalistas da capital, acompanhados de suas famílias, reuniram-se na Casa das Artes e da Imprensa. Exatamente à meia-noite, G. Belev saudou os presentes em nome da direção. O presidente do conselho, Yuriy Machmarov, estava naquele momento no Clube Militar.
Mais tarde, Machmarov retornou acompanhado do diretor de imprensa Serafimov e de outras pessoas. Canções folclóricas e danças mantiveram a festa até o amanhecer.
Quem ficou em casa
A reportagem não esqueceu aqueles que não estavam em salões luxuosos. Muitos moradores receberam o Ano-Novo em casa, reunindo dez ou vinte pessoas na residência que tivesse mais espaço. Rádio ou gramofone marcavam a espera pela meia-noite.
Histórias de anos melhores, lembranças familiares e canções antigas acompanhavam a despedida de 1938. O texto também menciona os que tinham muito pouco e atravessaram a noite em silêncio, sob cobertores gastos, mas igualmente presos à esperança de que o novo ano trouxesse condições melhores.
A mensagem de Boris III ao país
Na mensagem transmitida pelo rádio a partir do Clube Militar, Boris III desejou a todos um ano feliz e próspero. Pediu tranquilidade, trabalho pacífico e progresso para a Bulgária e encerrou com vivas ao país, ao exército e ao povo búlgaro.
Depois do hino, acrescentou uma curta oração pedindo ao “Rei dos Reis” um futuro brilhante para a Bulgária. O registro encerra assim uma noite que uniu solenidade oficial, vida noturna, festas profissionais, rádio e reuniões familiares — um retrato muito preciso de Sofia às portas de 1939.