Antes de a atual Prefeitura de Sofia ocupar seu lugar no centro da cidade, aquele trecho fazia parte de uma paisagem muito diferente: grandes pátios, casas turcas, celeiros, canais de água, ruas ainda sem continuidade e um pequeno harém que acabou ficando sob as fundações do edifício municipal. As memórias reunidas neste relato recompõem uma Sofia de bairros muito definidos, moradores conhecidos pelo nome e referências urbanas que desapareceram quase por completo.

Uma Sofia espalhada entre Perlovets e o rio Vladayska

O autor recorda a capital cerca de cinquenta anos antes de escrever suas memórias, quando Sofia ainda se espalhava em bairros claramente separados e se acomodava entre Perlovets e o rio Vladayska, na região de Gerena. A cidade terminava, a leste, perto da Praça Levski; a oeste, junto aos antigos cemitérios, onde mais tarde seria erguido o Palácio Distrital; ao sul, nas proximidades da Ponte do Seminário; e ao norte, em Hadzhimanovya.

No centro ficava o bairro judeu, formando aproximadamente um triângulo cujos pontos de referência eram a Igreja de Santa Nedelya, o começo da Rua Lege perto de Alabinska e a antiga Igreja de São Jorge. Os moradores mais ricos, os chamados chorbadzhii-korenyatsi, concentravam-se sobretudo em Denkoglu, na área onde surgiria o novo tribunal, ao longo da Rua Alabinska e no centro de Bash Cheshme.

O comércio ocupava a Rua Lege, o início das ruas Dondukov e Targovska, a área de Bezistena e os becos dos ourives. O balneário ficava junto à mesquita, e os mercados se estendiam de Solni Pazar, na região de Positano, por quase toda a Rua Lomska. Os moradores mais pobres se instalavam principalmente nos limites da cidade: em Gerenska Drazmahala, no fim de Aliginata, nos bairros de Bash Cheshme e Perlovska Imaret e nos campos à esquerda da Rua Graf Ignatiev. A comunidade cigana também se estabeleceu inicialmente nessas áreas periféricas.

O bairro de Aliginata e os grandes pátios turcos

A população turca ocupava pátios amplos no centro e no começo do bairro de Aliginata. O bairro começava na área da Prefeitura e seguia pela Rua Gurko, fechando-se em direção ao rio Perlovets entre as ruas Stefan Karadzha e Aksakov. Em suas extremidades, na direção do Zoológico e do Mausoléu de Batemberg, havia grandes celeiros de grãos, muitos deles de madeira.

Um pouco mais à direita erguia-se um celeiro de tijolos sem reboco, com dois andares, pertencente a Lud Petar. Ele criava gado e figurava entre os maiores proprietários de terras de Kuru-Baglar, área correspondente à atual Lozenets.

Uma casa em frente à futura Prefeitura

O narrador morava no início do bairro de Aliginata, no cruzamento das ruas Gurko e Levski, em frente ao terreno que viria a ser ocupado pela Prefeitura. Naquele tempo, o trecho alargado da Rua Gurko ainda não existia, nem a continuação da Rua Stefan Karadzha em frente ao cinema estudantil. A rua terminava ali.

À esquerda da casa da família, do outro lado de um caminho para pedestres, morava o importante funcionário Kisimov com a esposa, em uma alta casa turca cujas janelas e portas permaneciam fechadas com tábuas. O autor se lembra dele de óculos e dela com os cabelos soltos desde a manhã até a noite. A mulher costumava conversar das janelas com a mãe do narrador e explicar, com orgulho, que usava os cabelos daquela forma porque o marido gostava.

O pequeno harém que ficou sob as fundações da Prefeitura

Logo atrás da casa dos Kisimov havia um pequeno harém turco. O lugar desapareceu da superfície, mas, segundo a memória do autor, acabou literalmente sob as fundações da Prefeitura de Sofia. Quando a rua foi aberta e o terreno transformado, a propriedade passou para o respeitado e muito instruído Dr. Tsachev, que construiu ali uma sólida casa de dois andares no estilo conhecido localmente como givgir.

Mais tarde, a Prefeitura de Sofia comprou o imóvel e acrescentou novas alas e pavimentos. Desse processo surgiu o edifício municipal conhecido pelo autor em sua época.

Para o narrador, o harém não era apenas um detalhe arquitetônico desaparecido: era uma lembrança de infância, associada aos doces turcos e à halva trazida em caixas redondas de madeira de Constantinopla.

A primeira brigada de incêndio e o primeiro teatro de Sofia

Ao lado do antigo harém se estendia a primeira brigada de incêndio de Sofia. A parte da atual Cidade Jardim correspondente àquele setor ainda não existia. O terreno era enorme e vazio, indo das futuras barracas do jardim até a Rua Gurko e o Banco Nacional.

Em determinado momento, chegaram a ser abertas ali fundações destinadas a um Tribunal de Contas. No mesmo grande espaço foi construído, com tábuas e em formato circular, um dos primeiros teatros de Sofia: a arena de Angelo Pizzi. Foi nessa construção que a primeira companhia de Anton Popov, o maquinista, iniciou algumas de suas apresentações.

As casas do coronel Loginov e a antiga Rua Voynishka

Sobre um pátio turco abandonado, à direita da casa do narrador, foram erguidas duas belas residências no estilo givgir. Elas foram construídas pelo coronel russo Loginov, que permaneceu na cidade depois da ocupação. Pouco tempo depois, ele morreu acidentalmente durante a noite, por descuido.

A rua que hoje leva o nome de Levski era então chamada Voynishka, ou “Rua dos Soldados”. O nome tinha uma explicação simples: todos os dias a guarda destinada ao Palácio passava por ali. A via começava na Praça Slaveykov e terminava no Konak, o edifício que mais tarde se tornaria o Palácio. A partir dali, quase em ângulo reto, abria-se a longa estrada de Constantinopla.

O canal de água que atravessava o centro

Vindo das ruas Vitoshka e Solunska, passando pela Praça Slaveykov e pelo café Bashi, um canal de água conhecido como srednogradska vada seguia pela antiga Rua Voynishka. Diante do quintal da família, ele virava para a Rua Gurko, depois cruzava a área atrás do Teatro Nacional e passava junto ao local da futura Slavyanska Beseda, que ainda era um pátio turco.

O canal descia então para atravessar as valas do jardim diante do Clube Militar. Dali seguia junto à estrada de Constantinopla em direção ao rio Perlovska, passando por uma grande depressão onde mais tarde seriam construídas casas pertencentes a famílias conhecidas da cidade.

Depois do antigo albergue de Stoichkov, perto do lugar onde posteriormente funcionaria a confeitaria Nova Savoya, a água passava por propriedades de Yablanski e do general D. Nikolaev. Cortava ainda a campina do futuro Jardim Real das Crianças e desembocava no rio. Perto dali, antigos garimpeiros permaneciam agachados junto à margem, lavando areia do rio durante horas em cochos de madeira escurecidos pelo carvão, procurando ouro. E, segundo o autor, encontravam.

Do café Bashi à casa do pintor Kosta

Voltando à Rua Voynishka, o passeio recomeça na Praça Slaveykov, perto do café Bashi. Na esquina onde mais tarde funcionaria a farmácia do Dr. Penchev ficava a casa de Kosta Boyadzhiyata, um dos grandes mestres pintores daquele tempo. Com seu trabalho, ele conseguira organizar uma vida confortável.

A casa da esquina era sua. No espaço depois ocupado pela farmácia funcionava uma taverna, diante da qual alguns salgueiros faziam sombra junto ao canal de água. Era um ponto de encontro conhecido tanto de Kosta quanto do vizinho padre Mateya. Quem quisesse encontrar qualquer um dos dois sabia onde procurar.

Nos feriados, Kosta saía para passear com um chapéu-coco amassado, uma bengala grossa, casaco preto comprido, calças cinza-claro mais curtas e sapatos com tachas. O narrador o descreve como parte de um ambiente em que os homens ligados aos ofícios artísticos já exibiam algo de boêmio.

A família Naumov e o quintal do poeta Slaveykov

Ao lado da casa de Kosta, em um quintal relativamente amplo, morava a numerosa família de Yordan Naumov, chefe de departamento do Ministério das Finanças. Sempre sorridente, ele era pai do violinista e músico Petko Naumov.

Atrás dos quintais de Kosta Boyadzhiyata e Naumov, de frente para a praça, abria-se o grande terreno quase quadrado do poeta Slaveykov. A frente era ocupada por diversas árvores frutíferas, que na primavera e no outono davam um aspecto especial à residência pintada de azul, situada mais ao fundo.

O autor guardou sobretudo a imagem do proprietário já idoso, de cabelos brancos, figura robusta, roupas tradicionais, nariz e bigode caídos, tendo ao fundo a folhagem amarelada de uma tarde de outono. Slaveykov não gostava de permanecer sentado. Quando visitava o pai do narrador, caminhava de um lado para o outro enquanto conversava. A mesma imagem ficou associada à redação do jornal Tarnovo Constitution: sempre andando, observando o interlocutor com olhos que o memorialista descreve como extraordinariamente penetrantes.

Essas lembranças fazem da área em torno das ruas Gurko, Levski e da atual Prefeitura um verdadeiro mapa arqueológico de Sofia. Sob prédios administrativos e ruas modernizadas sobrevivem, pelo menos na memória escrita, o pequeno harém, a primeira brigada de incêndio, um teatro de madeira, canais de água, tavernas, pátios e casas de personagens que ajudaram a formar a cidade moderna.