Antes da Libertação de 1878, Sofia era uma cidade de ruas estreitas, casas voltadas para pátios murados, bairros conhecidos como mahalas, mercados especializados, caravançarás, mesquitas, banhos, canais de água e áreas agrícolas logo além do limite urbano. As memórias de Hr. Zlatarev, publicadas em 1940, preservam uma das descrições mais detalhadas dessa Sofia que desapareceu sob a modernização do fim do século XIX e início do XX.
Uma cidade estratégica cercada por redutos e valas
A importância de Sofia como centro dos Bálcãs era antiga. Sua posição favorecia comércio, comunicações e defesa, algo lembrado pelos vestígios das muralhas romanas e de estruturas ainda anteriores. Os últimos restos dessas muralhas desapareceram durante obras posteriores, especialmente na região de Banishora e do Boulevard Maria Luiza.
Durante o período otomano, a defesa foi ampliada por posições de terra instaladas nas elevações ao redor da cidade. Zlatarev cita os redutos de Slatina, os dois de Kuru Baalar — um na área do atual reservatório próximo ao Seminário e outro acima das fábricas de tijolos —, além dos redutos de Konyovitsa e Banishora, este último próximo à cervejaria Macedônia. Alguns teriam sido preparados pouco antes ou durante a Guerra de Libertação.
Também foram abertas valas defensivas mais próximas da cidade. Uma delas ficava à esquerda do então Boulevard Ferdinand, começando perto de Graf Ignatiev; outra partia do mesmo boulevard na altura da futura Legação Britânica, passava pelos quartéis de infantaria e pelo Boulevard Tsaritsa Joanna até o Monumento Russo.
Casas térreas, pátios fechados e ruas onde crianças se perdiam
Até a Libertação, predominavam pequenas casas térreas cujas fachadas externas quase não se abriam para a rua. As janelas se voltavam para os pátios internos, sempre cercados por muros. Prédios turcos e cristãos de dois pavimentos eram menos comuns e, salvo exceções, também ficavam protegidos por quintais e portões sólidos.
O Boulevard Maria Luiza, da Ponte dos Leões até a região de Santa Nedelya, e algumas poucas vias destacavam-se por serem relativamente retas e largas. Grande parte do restante de Sofia era formada por becos tortuosos e estreitos. Zlatarev observa que uma criança podia se afastar apenas cem ou duzentos passos de casa e já não conseguir encontrar o caminho de volta.
Os antigos portões de Sofia
Entre os principais acessos estavam o Portão de Stambol, aproximadamente na direção do atual Boulevard Tsar Osvoboditel; o Portão de Orhaniye, no fim da Rua Moskovska, perto do Monumento a Levski; o Portão de Lom, no Boulevard Maria Luiza, a partir da Ponte dos Leões; o Portão de Dupnitsa, no fim da Rua Alabinska, em direção ao Boulevard Makedoniya; e o Portão de Samokov, pela atual Graf Ignatiev, na área da antiga Legação Alemã.
O núcleo urbano anterior à Libertação ocupava aproximadamente a área delimitada por Ferdinand, Tsar Osvoboditel, Santa Sofia, Dondukov, Slivnitsa, Maria Luiza, Dragoman, Hristo Botev e Patriarca Eftimiy. Fora dessa faixa havia hortas e terrenos ainda pouco urbanizados. Bairros como Yuch Bunar seriam construídos e ampliados principalmente depois das grandes intervenções urbanas conduzidas pelo prefeito Dimitar Petkov, conhecido como Cholaka.
A modernização de Dimitar Petkov e a resistência às demolições
A transformação de Sofia depois da Libertação exigiu demolições e desapropriações que provocaram conflitos. Entre os episódios mais lembrados estavam as demolições das igrejas Mali Sveti Nikola e Prechista, próximas à Praça Trapezitsa. Mulheres e crianças teriam enfrentado trabalhadores e bombeiros encarregados da remoção, até que as autoridades usaram mangueiras para dispersar os manifestantes.
As mahalas da Sofia antiga
A cidade propriamente dita era dividida em dezenas de mahalas, algumas formadas por apenas algumas casas. Seus nomes registravam fontes, mesquitas, ofícios, mercados, acidentes do terreno e comunidades. Zlatarev enumera uma longa série que ajuda a reconstruir a geografia urbana anterior às grandes avenidas.
Imaret Mahala e Sheikh Mahala
Imaret Mahala ocupava a região em torno da atual Igreja dos Sete Santos, à esquerda de Graf Ignatiev. Sheikh Mahala se estendia por uma área delimitada aproximadamente pelas atuais Rakovski, Tsar Krum, Strumitsa, Tsar Shishman, Patriarca Eftimiy, Asparuh, Neofit Rilski e a antiga vala. Algumas famílias ciganas também viviam ali.
A sudoeste ficava Drangaz Mahala, vizinha de Sheikh Mahala e chegando até a vala. Aligina Mahala e a área conhecida como Nova Fonte ocupavam a faixa entre Tsar Shishman, General Parensov, Gurko e Ferdinand.
Os velhos e os novos celeiros
Os Velhos Celeiros ficavam entre Tsar Shishman, Gurko, Ivan Vazov e 6 de Setembro. Os Novos Celeiros ocupavam a zona entre Gurko, Aksakov e Ferdinand. Stambol Kapiya correspondia ao trecho entre Aksakov e o Clube Militar, enquanto Siyavush Mahala cercava a Igreja de Santa Sofia, que durante o período otomano também foi conhecida como mesquita Siyavush.
Kafene Bashi, Bash Cheshme e Kuru-Cheshme
Kafene Bashi correspondia à região da atual Praça Slaveykov, com edifícios ao longo da Rua Solunska. Bash Cheshme ficava à esquerda da então Tsaritsa Joanna, também pela Solunska. Mais ao sul apareciam áreas como Bukata, Tash Terezia, Chair Mahala e Yazadji Mahala.
Kuru-Cheshme ocupava uma faixa próxima às atuais Tsar Kaloyan, Maria Luiza e ao Palácio da Justiça. Uma antiga tradição turca mencionava ainda uma Kaloyan Mahala naquela mesma região.
O grande bairro judeu e o caravanserai
O bairro judeu era extenso e se ligava a ruas como Lege, Alabinska, Tsar Kaloyan e Dondukov, alcançando Santa Nedelya. Um de seus elementos mais interessantes era o Karvasara judaico, nome derivado de caravanserai. Tratava-se de um pátio interno semelhante a uma passagem comercial, cercado por residências judaicas no interior e pequenas lojas voltadas para o lado de fora.
Havia acessos pela Rua Targovska e por Dondukov. Caravanas com carroças, cavalos e camelos estacionavam ali enquanto suas mercadorias eram descarregadas no Chohadjiyski Han, situado em frente. Uma lembrança curiosa dizia que os camelos tinham grande apetite por massa de pão e às vezes arrancavam das tábuas os pães ainda crus que mulheres levavam aos fornos.
Chohadjiyski Han e a rua dos ourives
Na área do posterior Hotel Berlin existia um grande edifício de tijolos quadrados com pátio interno e duas entradas. Era o Chohadjiyski Han, com armazéns abobadados voltados para o pátio e lojas voltadas para a rua. Parte desses estabelecimentos formava a famosa rua dos ourives.
A área era cortada por uma rua que seguia de Targovska em direção aos banhos. Havia joalherias, lojas de tecidos, a casa bancária de Nikolachko Georgiev, uma livraria evangélica e o escritório do advogado Dobri Batalov.
Banya Bashi, a charshia dos sapateiros e as fontes
A atual Praça Banski, junto ao Mercado Central, era conhecida como Banya Bashi. A região concentrava o banho turco e outros estabelecimentos de banho próximos. Em Dondukov, perto de São Jorge, havia uma charshia coberta de fabricantes de chinelos. As lojas cercavam um pequeno espaço redondo coberto, com três entradas. No centro havia uma fonte onde artesãos muçulmanos faziam suas abluções antes das orações.
A leste da rua dos ourives ficavam as áreas dos tintureiros e vendedores de tecidos. A famosa Fonte dos Tintureiros tinha um longo tanque de pedra alimentado por água corrente, usado para lavar peças recém-tingidas. Mais ao norte ficava o chamado Poço Quente, alimentado por água mineral.
Shaytan Charshia, o relógio da cidade e o mercado de grãos
Ao sul surgia a Shaytan Charshia, a “Feira do Diabo”, reunindo oficinas de tinturaria, cafés, restaurantes e tavernas. Entre elas aparecia a conhecida casa de Mihal Vakareliya. No centro de Dondukov, perto do futuro cinema Balkan, havia uma área chamada Kapano, associada a um antigo relógio urbano.
A região do posterior Hotel Splendid era ocupada pelo mercado de grãos. Nas proximidades estava a grande propriedade de Hadji Mano, cercada por altos muros de pedra.
Mercados, moinhos e bairros às margens do Vladayska
Ao sul de outras áreas comerciais apareciam o Mercado de Gado e o Mercado de Sal. Atrás do Mercado Central, em direção ao rio Vladayska, sucediam-se mahalas como Muselim, Mala Cheshma e a de Tellyak Hasan. Aí funcionava o conhecido moinho de Tellyak Hasan, movido pela água do Vladayska.
Depois da destruição e remodelação da velha Sofia, bairros como Yuch Bunar, Banishora, Kyulutsite, Lozenets e Perlovets cresceram fora do antigo limite. Draz Mahala recebeu sobretudo migrantes das aldeias próximas, muitos deles agricultores e criadores de animais. Próximo à estação formou-se ainda um bairro cigano cuja liderança local era conhecida popularmente como “rei dos ciganos”.
A Mesquita Negra, o imaret e o primeiro arsenal militar
Entre Graf Ignatiev, Tsar Shishman, General Parensov e 6 de Setembro havia um recinto cercado por um muro de três a quatro metros de altura. Dentro dele ficava a chamada Mesquita Negra, ou Imaret Jamia, edifício que mais tarde se transformaria na Igreja dos Sete Santos.
A poucos metros da mesquita havia um grande edifício de dois pavimentos usado como imaret: viajantes pobres, muçulmanos ou cristãos, podiam receber comida quente e abrigo gratuitamente. Depois da Libertação, o prédio foi isolado do pátio da mesquita e transformado em prisão.
O mesmo complexo foi usado para depósitos militares. Mais tarde, ali funcionaria a primeira oficina de armas e um dos primeiros arsenais búlgaros. Durante a Guerra Servo-Búlgara, esse arsenal abasteceu tropas e recebeu troféus capturados em combate.
A “Muralha Romana” que não era romana
Nos arredores de Lozenets, em uma área então pouco construída, havia cemitérios turcos e uma estrutura conhecida em turco como namazgah. A parede preservada no local seria mais tarde chamada, erroneamente, de “Muralha Romana”. Na verdade, segundo a tradição descrita por Zlatarev, fazia parte de um espaço aberto destinado a orações. Ainda se podia reconhecer uma reentrância usada pelo imã.
Kuru Baalar: vinhedos secos, cerejeiras e passeios
As áreas que depois seriam conhecidas como Lozenets Inferior e Superior eram chamadas Kuru Baalar, “vinhedos secos”. Antigamente haviam sido plantadas com videiras; depois, abandonadas, ficaram cobertas por cerejeiras e algumas nespereiras.
Na primavera e no verão, os moradores de Sofia iam até ali para passeios curtos, refeições ao ar livre, músicas e festas. Era um dos destinos de lazer mais próximos da cidade.
Como Sofia recebia água potável
Durante o período otomano, parte da água de beber vinha de Boyana por tubos de madeira feitos de pinho. Em vários pontos havia aberturas de inspeção e ventilação chamadas hazni. A água chegava até Bukata e ao chamado Tash Terezia, uma espécie de estação distribuidora, e dali seguia para diferentes fontes públicas.
Entre as fontes mais valorizadas estavam Yazadji Cheshma, junto a um velho olmo; a fonte próxima à Büyük Jamia; Bash Cheshme e Kuru-Cheshme. Muitos poços domésticos tinham água de qualidade inferior, por isso as famílias iam buscar água nessas fontes.
Outra corrente atravessava a área de Slaveykov e seguia por Vitoshka, Solunska, Levski, a região do Teatro Nacional e depois para o rio Perlovska. Com a construção da rede de esgoto, parte dessa água passou a ser usada na lavagem dos canais urbanos.
Feiras, mosteiros e festas ao redor da cidade
Os antigos moradores de Sofia procuravam aldeias e mosteiros próximos para lazer e celebrações. As feiras religiosas desempenhavam papel importante no calendário. Nos primeiros dias da Páscoa e no Domingo de São Tomé havia a feira de Draz Mahala, que mudou de lugar ao longo do tempo.
No quarto dia da Páscoa, grupos que voltavam do Mosteiro de Rila eram recebidos na região de Kriva Reka com cerimônias e festejos. Na Sexta-feira após a Páscoa havia feira em Poduyane; no Dia de São Jorge, a população se reunia perto de Ederlez Tashi, a “Pedra de São Jorge”, onde uma tradição falava de uma nascente surgida da pegada do cavalo do santo.
Em maio, durante a festa de São Nicolau de Nova Sofia, realizavam-se procissões em Yuch Bunar e pelos arredores de Kuru Baalar para pedir fertilidade. Outras festas levavam moradores a Slatina, Knyazhevo, Boyana, Bankya e aos mosteiros de Ilienski e Germansky.
O valor dessas memórias está justamente na quantidade de nomes que desapareceram do mapa moderno. Imaret Mahala, Sheikh Mahala, Kuru-Cheshme, Karvasara, Shaytan Charshia, Kafene Bashi e Kuru Baalar não são apenas curiosidades linguísticas: eram a maneira como os habitantes organizavam e reconheciam a Sofia anterior à grande remodelação urbana. Reunidos, esses nomes permitem reconstruir uma cidade cuja planta e cujo cotidiano já seriam difíceis de imaginar poucas décadas depois.