Uma fotografia de 1941 mostra o cruzamento do Boulevard Hristo Botev com a Rua Tsar Simeon quando uma faixa de gramado ainda ocupava o espaço que mais tarde receberia os trilhos do bonde. Para Krikor Aslanyan, que passou a infância e a adolescência nesse trecho de Sofia, o bulevar não era apenas uma via central: era o limite de seu mundo infantil, o campo de futebol improvisado, o caminho para escolas, cinemas, oficinas, cafés e pequenas lojas que desapareceram ou mudaram de função com o passar das décadas.
O Boulevard Hristo Botev visto por quem cresceu ao lado dele
Aslanyan já havia registrado lembranças das crianças da Rua Bratya Miladinovi, sua rua natal. O Boulevard Hristo Botev corre paralelamente a ela, a oeste, e as fotografias de sua infância foram feitas justamente no cruzamento com a Rua Tsar Simeon. Por isso, suas memórias desse bulevar são também memórias de casa.
O Boulevard Hristo Botev começa no encontro conhecido como as “cinco esquinas”, onde se cruzam o Boulevard Patriarca Eftimiy, o Boulevard Skobelev e a Rua Praga, e segue para o norte até a praça da Estação Central. Segundo o autor, o traçado essencial permaneceu reconhecível durante décadas. A grande transformação veio depois de 1944, com a construção da linha de bonde nº 6. As obras começaram em 1945 e, na lembrança de Aslanyan, o primeiro bonde percorreu a nova linha em 1946. As crianças do bairro estavam entre os primeiros passageiros.
Antes do bonde nº 6 havia um gramado no meio do bulevar
Antes dos trilhos, uma faixa de grama chegava praticamente à altura do meio-fio. Era ali que as crianças jogavam futebol. Aslanyan recorda com humor que dispunham de um gramado que nem os grandes jogadores de futebol de Sofia tinham, porque naquela época não havia na cidade um campo de futebol gramado como os que se tornariam comuns mais tarde.
Apesar de central, o Boulevard Hristo Botev tinha pouco trânsito. De tempos em tempos passava uma carroça indo ou voltando do mercado de verduras situado perto do cruzamento com o Boulevard Slivnitsa, depois da Ponte de Ferro. No fim do mercado, pelo lado da Rua Sofroniy Vrachanski, funcionava uma pequena fábrica de limonada. Também apareciam charretes e vendedores de boza, sorvetes e outros produtos. O som dos cascos sobre os paralelepípedos podia ser ouvido de longe, o que dava às crianças tempo suficiente para sair do caminho sem interromper por muito tempo a brincadeira.
Da Praça Vazrazhdane até Slivnitsa
Na geografia infantil do autor, o Boulevard Hristo Botev começava na Praça Vazrazhdane e terminava no Boulevard Slivnitsa. Ir além desses limites sem os pais nem sequer entrava em consideração. Seu passeio de memória começa, portanto, na Praça Vazrazhdane, onde antes ficava a conhecida Vaisova Melnitsa. Ali se cruzavam duas faixas verdes: uma seguia no sentido leste-oeste, ao longo do então Boulevard Knyaginya Klementina, atual Al. Stamboliyski; a outra acompanhava o Boulevard Hristo Botev de norte a sul.
O Teatro Renaissance e o primeiro contato de Sofia com o bebop
Na praça ficava o Teatro Renaissance, ou Vazrazhdane, que nas primeiras lembranças de Aslanyan já havia sido atingido por um incêndio. Depois de setembro de 1944, o edifício foi restaurado e transformado em um cinema com um grande palco. O teatro amador do bairro também apresentava ali seus espetáculos, normalmente nas manhãs de domingo, por volta das dez horas, quando não havia sessões de cinema.
Foi nesse local que, nos anos 1950, aconteceu um episódio musical que ficou marcado na memória do autor: o único concerto em Sofia do cantor de jazz iugoslavo Jimmy Stanić. A apresentação teria colocado muitos amantes da música da cidade em contato com um estilo então novo para eles: o bebop.
Escolas, o centro armênio e o antigo cinema Ufa
No cruzamento com a antiga Rua Nishka — depois Naycho Tsanov e atualmente Todor Aleksandrov — ficava o prédio da 6ª Escola Secundária Masculina. O mesmo edifício abrigava também a 3ª Escola Secundária Feminina. Os rapazes estudavam pela manhã e as moças à tarde, com os turnos posteriormente invertidos. Foi ali que o conhecido músico Vili Kazasyan concluiu o ensino médio.
Do outro lado do Boulevard Hristo Botev, no nº 31 da antiga Rua Nishka, ficava — e segundo a memória registrada, continuava existindo — a Casa Popular Armênia. Ali funcionavam a igreja apostólica armênia, o clube, a redação do jornal Yerevan e escritórios de outras instituições e organizações da comunidade armênia.
Pouco antes do cruzamento com a Rua Pirotska, do lado esquerdo, aparecia o curioso edifício da Casa de Cultura dos Trabalhadores da Construção, conhecida popularmente como “Dyulgerskoto”. Os elementos decorativos da fachada faziam referência às profissões da construção civil. Antes da nacionalização, o prédio também abrigava o cinema Ufa.
Duas velhas construções na esquina com a Rua Pirotska
No próprio cruzamento com a Rua Pirotska, duas construções antigas se erguiam em lados opostos do Boulevard Hristo Botev. Quando o relato foi escrito, ambas estavam em estado precário. O autor observava que, se fossem restauradas, poderiam voltar a ser uma bela ornamentação da capital. No telhado de uma delas já cresciam árvores, sinal visível do abandono.
O cinema Excelsior, castanhas quentes e a oficina “Silêncio”
Na altura da pequena Rua Chiprovtsi, que termina no boulevard, ficava o antigo cinema Excelsior. Mais tarde ele recebeu o nome Asen Zlatarov; depois, sua fachada passou a abrigar lojas de fechaduras e narguilés, enquanto o antigo salão foi transformado em depósito e chegou a ser anunciado para aluguel como espaço de armazenagem.
Ao lado do cinema havia um vendedor de grão-de-bico torrado, sementes e outros frutos secos que ele próprio preparava. Era possível comprá-los ainda quentes. Em seguida vinha a oficina de funilaria “Tishina”, ou “Silêncio”, pertencente ao tio do autor antes de ele se transferir para a Rua Tsar Simeon. Décadas depois, o mesmo ponto comercial vendia tapetes. Ao lado da oficina trabalhava um alfaiate.
No lado norte do cinema funcionava uma grande oficina da fábrica Vagryanka. Segundo o relato, ela serviria de base para a posterior criação da fábrica de máquinas-ferramenta na estrada de Iliantsi.
Rua Balkan e as bombas de 10 de janeiro de 1944
Antes de atravessar a Rua Tsar Simeon, o passeio chega à pequena Rua Balkan, que se estendia por apenas cem ou cento e cinquenta metros até a Rua Bratya Miladinovi. À primeira vista, nada ali justificaria atenção militar. Isso não impediu, porém, que bombas norte-americanas atingissem as quatro esquinas em 10 de janeiro de 1944. Segundo a lembrança preservada no texto, dezenas de pessoas reunidas para uma festa de noivado morreram naquele ataque.
Na esquina do Boulevard Hristo Botev com a Balkan havia uma oficina de funileiro. Sob a casa amarela que ainda podia ser vista na época do relato funcionara o café de Bai Khachik Taschiyan. Seu filho, Varuzhan — conhecido como Jan — trabalhou por muitos anos na Rudmetal e na Balkankarimpex e também se destacou como atleta.
O café era espaçoso e recebia muitos moradores pela manhã. Eles iam tomar café e ler os jornais, pendurados em suportes especiais para os clientes. Jogavam gamão e dominó. Aslanyan não se recordava de partidas de cartas ou xadrez. Ele próprio frequentava o lugar porque uma tia morava no andar de cima; anos depois, o apartamento continuava pertencendo a um primo e passou a ser alugado como uma espécie de hospedagem.
Farmácia, açougue, sapataria e a livraria Fotinov
Na esquina oposta ficava a farmácia de Janusz. Logo depois do cruzamento, do lado esquerdo, havia um açougue, seguido pela sapataria do tio Kachayan, uma quitanda, um laticínio e finalmente a livraria Fotinov. Seu proprietário era um senhor idoso e corpulento que atendia alunos e professores da vizinha 6ª Escola Secundária Konstantin Fotinov. Na lembrança de Aslanyan, ele sempre tinha uma piada pronta e fazia das pequenas compras um momento agradável para as crianças.
No pátio dessa escola começou a carreira esportiva de Dimo Pechenikov, colega e amigo do autor. Pechenikov morava na esquina do Boulevard Hristo Botev com Slivnitsa. Depois de boas atuações como centroavante em um campeonato juvenil dos Bálcãs, foi integrado ao time principal do PSK Levski. Uma fratura na perna durante uma partida encerrou precocemente uma carreira que parecia promissora.
A “nova cooperativa”, Tsonyu Angelov e a limonada de Sofia
Seguindo pela calçada direita, chegava-se à pequena Rua Pordim. Ali havia um prédio cooperativo cinza que, quando recém-construído, era conhecido por todo o bairro simplesmente como “a nova cooperativa”. Um de seus moradores foi Tsonyu Angelov, lembrado como um dos grandes nomes do motociclismo búlgaro.
Na esquina das ruas Kiril e Metodi funcionava outra pequena fábrica de limonada. Para as crianças, observar as garrafas sendo enchidas com o líquido amarelo era um espetáculo. O autor brinca que provavelmente nenhum limão verdadeiro entrava na receita, ainda assim a bebida permanecia entre as favoritas dos antigos moradores de Sofia: água da cidade, açúcar, essência de limão e corante amarelo.
É nesse ponto que o passeio termina. O Boulevard Hristo Botev de Aslanyan não é uma lista de monumentos, mas um mapa de memórias: o gramado substituído pelos trilhos do bonde nº 6, o cinema, as oficinas, os cafés, as escolas, as lojas e as pessoas que davam identidade a um trecho aparentemente comum da velha Sofia.