Se a primeira parte do especial de 1932 acompanhava Sofia desde a Antiguidade, a segunda se concentrava nos séculos de domínio otomano. O objetivo não era apenas enumerar governantes ou datas, mas reconstruir a aparência da cidade: quem vivia nela, como eram suas casas, quantas mesquitas existiam, onde ficavam os mercados, quais portões eram conhecidos e que impressão Sofia causava em viajantes europeus.
Uma cidade importante dentro do Império Otomano
Sofia continuou a desempenhar papel relevante depois da conquista otomana. Tornou-se sede do beylerbey da Rumélia, posição administrativa de grande peso. Os cinco séculos de domínio otomano deixaram marcas profundas sobre a antiga Sredets cristã, tanto no aspecto físico quanto na composição da população.
As transformações atingiram ruas, edifícios, bairros e instituições. Mesquitas, banhos, caravançarás, mercados e residências de tipo oriental passaram a definir boa parte da paisagem urbana. Ao mesmo tempo, comunidades cristãs, judaicas e muçulmanas ocuparam setores diferentes da cidade.
Sofia sem muralhas e os vestígios da fortaleza antiga
A Sofia otomana já não possuía, em grande parte de sua história, a muralha medieval como sistema defensivo funcional. Nos primeiros séculos após a conquista, partes das antigas fortificações ainda eram visíveis, mas a cidade cresceu para além delas. Os autores de 1932 usaram descrições de viajantes para mostrar uma cidade de casas predominantemente baixas, ruas estreitas e bairros separados por jardins, pátios e cursos d'água.
Alguns dos antigos acessos continuaram vivos na memória local. Nomes como Chukur Kapı e Kurşumliyska Kapı aparecem ligados a pontos específicos do tecido urbano. Mesmo quando os portões já não existiam fisicamente, seus nomes sobreviviam como referências para ruas, cruzamentos e bairros.
População búlgara, turca e judaica
Quando os otomanos conquistaram Sofia, a população era majoritariamente búlgara. Com o tempo, famílias turcas se estabeleceram em grande número, especialmente por causa da importância administrativa e militar da cidade. O equilíbrio demográfico variou ao longo dos séculos, mas a presença búlgara não desapareceu.
A comunidade judaica também se tornou parte marcante da vida urbana. Judeus aparecem em Sofia já no século XVI. Em 1578, o viajante Stephan Gerlach estimou sua presença em centenas de casas. Muitos eram sefarditas expulsos da Península Ibérica no final do século XV e acolhidos em cidades do Império Otomano. Em Sofia, desenvolveram comércio, artesanato e instituições religiosas próprias.
As comunidades viviam próximas, mas organizadas em mahalas, ou bairros, frequentemente identificados pela religião, profissão, origem ou por algum edifício importante. Essa estrutura urbana ainda estava parcialmente reconhecível no século XIX.
Mesquitas, banhos e caravançarás
A Sofia otomana era famosa pelo número de mesquitas. Viajantes e cronistas registraram dezenas delas, embora as cifras variem. Algumas ocupavam edifícios anteriores adaptados ao novo uso; outras foram construídas de raiz. A futura Banya Bashi tornou-se uma das mais conhecidas, associada às águas termais e à zona dos banhos.
Banhos públicos eram parte essencial da cidade. Sofia já era conhecida pelas fontes quentes desde a Antiguidade, e o período otomano preservou essa relação com a água. Em torno dos banhos surgiram atividades comerciais, hospedarias e pontos de encontro.
Caravançarás e hans atendiam mercadores e viajantes que atravessavam os Bálcãs. Alguns complexos reuniam pátios internos, estábulos, depósitos e quartos. A cidade ficava numa rota natural entre Constantinopla, Niš e o interior da Europa, e o movimento de caravanas era parte cotidiana de sua economia.
Os mercados e as ruas comerciais
O comércio se organizava por setores. Certas ruas concentravam sapateiros, curtidores, alfaiates, ourives, vendedores de tecidos ou comerciantes de alimentos. Mercados cobertos e feiras abertas faziam com que áreas inteiras mudassem de aspecto nos dias de maior movimento.
Os nomes de antigas charshias sobreviveram muito tempo depois de suas funções originais desaparecerem. A memória de Kere-charshiya, da zona dos peleiros e de outros mercados especializados atravessou a Libertação e ainda aparecia nas lembranças publicadas no início do século XX.
O que Ami Boué viu em 1837
O naturalista e viajante Ami Boué visitou Sofia em 1837 e deixou uma descrição que a edição de 1932 considerava especialmente valiosa. Ele viu uma cidade de aspecto oriental, com ruas irregulares, casas cercadas por vegetação e grande presença de construções religiosas muçulmanas.
Para um visitante europeu acostumado a centros urbanos mais compactos e alinhados, Sofia podia parecer dispersa. Jardins e pátios aumentavam as distâncias entre as casas. Muitas construções eram de madeira ou materiais mistos, vulneráveis a incêndios e terremotos.
Terremotos e incêndios que mudaram a cidade
O século XIX trouxe abalos que afetaram diretamente a aparência urbana. Terremotos, entre eles os lembrados em 1818 e 1858, danificaram edifícios e obrigaram reconstruções. Incêndios também consumiram quarteirões inteiros, especialmente onde predominavam estruturas de madeira.
Esses desastres ajudam a explicar por que tão poucos elementos da Sofia otomana chegaram intactos ao século XX. A modernização posterior, com abertura de avenidas e substituição de casas baixas por prédios maiores, acelerou ainda mais o desaparecimento.
Uma cidade de videiras, pátios e casas baixas
Descrições do século XIX falam de ruas estreitas cobertas em alguns trechos por videiras que avançavam de um lado ao outro, criando sombra sobre os caminhos. Pátios internos possuíam árvores frutíferas, poços e anexos para animais. A cidade não tinha a densidade contínua que viria a adquirir depois de se tornar capital.
As casas de famílias mais abastadas podiam ter dois pavimentos, varandas de madeira e grandes pátios. As mais modestas eram térreas e se misturavam a oficinas, estábulos e pequenos jardins.
Da cidade oriental à capital moderna
A grande ruptura ocorreu depois de 1878. Em poucos anos, a nova capital búlgara começou a abrir ruas retas, demolir antigas estruturas, drenar áreas alagadiças e erguer edifícios administrativos de inspiração europeia. O processo foi tão rápido que observadores do início do século XX já falavam de uma cidade quase irreconhecível.
A edição de 1932 tratava esse contraste como uma chave para compreender Sofia. Apenas algumas décadas separavam os leitores daquela revista de uma cidade em que ainda existiam portões lembrados pelo nome, mahalas bem definidas, caravançarás e fileiras de casas baixas. Chukur Kapı, Kurşumliyska Kapı e os antigos mercados não eram então antiguidades remotas; faziam parte da memória de pessoas ainda vivas.
É justamente essa proximidade que torna o relato valioso. A Sofia otomana descrita ali não aparece como um cenário abstrato, mas como uma camada urbana que estava desaparecendo diante dos olhos de uma geração.
O bairro judeu e os sefarditas de Sofia
Os registros citados pela revista de 1932 mostram que a presença judaica em Sofia era antiga e bem estabelecida. O viajante Stephan Gerlach, em 1578, já contava centenas de famílias judias na cidade. A expansão da comunidade esteve ligada à chegada de sefarditas expulsos da Espanha e de outros territórios da Península Ibérica no final do século XV. Eles se estabeleceram em cidades otomanas e criaram redes comerciais que conectavam os Bálcãs ao Mediterrâneo.
Em Sofia, os judeus ocupavam bairros próprios, mantinham sinagogas e participavam do comércio urbano. A coexistência entre bairros búlgaros, turcos e judaicos contribuiu para uma cidade de fisionomia muito diversa, na qual línguas, vestuário e práticas religiosas diferentes eram visíveis numa distância de poucas ruas.
Uma cidade descrita por viajantes estrangeiros
Os autores de 1932 recorreram repetidamente a viajantes porque suas observações preservavam aspectos que os documentos administrativos raramente registravam: largura das ruas, materiais das casas, presença de jardins e o impacto visual das mesquitas. Essas descrições permitem acompanhar a mudança de Sofia de uma cidade oriental dispersa para uma capital planejada segundo padrões europeus.
O contraste ficou especialmente forte depois de 1878. Abertura de avenidas, demolições e novos edifícios administrativos apagaram em poucas décadas parte da paisagem que os viajantes do início do século XIX ainda haviam visto quase intacta.