As memórias de Krum Dimitrov, publicadas em 1940, preservam uma Sofia de rios ainda abertos, feiras de Páscoa, trenós, escolas térreas, bairros judeus e turcos, casas com grandes porões e ruas em que crianças podiam passar o dia inteiro brincando. O texto não descreve monumentos isolados: reconstrói a sensação de crescer numa capital que estava mudando rapidamente e que, poucas décadas depois, já parecia pertencer a outro mundo.
Uma criança perdida perto da Rua Tsar Simeon
Dimitrov começa com uma lembrança muito antiga. Aos quatro ou cinco anos, vagava pelos arredores do bairro cigano, perto do cruzamento da Rua Tsar Simeon com Bratya Miladinovi, quando se perdeu. Um guarda o encontrou e o levou à delegacia, onde ficou até a mãe aparecer.
Anos depois, aos oito ou nove, continuava passando pelo mesmo lugar a caminho dos campos e de uma pequena propriedade entre a Fábrica de Açúcar e a elevação em direção a Gorna Banya. A irmã mantinha ali uma pequena exploração agrícola, e durante a colheita e a debulha ele levava comida aos trabalhadores.
No caminho observava os acampamentos ciganos, os abrigos precários, as mulheres e as crianças que circulavam pela região. A paisagem, a pobreza e o movimento dessas áreas periféricas deixaram uma das impressões mais fortes de sua infância.
A escolha inesperada da escola Konstantin Fotinov
Outra memória marcante é a matrícula na primeira série. A família o levou à escola São Cirilo e Metódio e mostrou o pátio onde deveria permanecer. Do outro lado da rua, entretanto, viu outro grupo de crianças que seria transferido para a escola Konstantin Fotinov devido ao grande número de alunos.
Tomado por uma tristeza difícil de explicar diante do primeiro prédio, afastou-se do grupo, juntou-se às crianças destinadas à Fotinov e acabou permanecendo ali até o fim da quarta série. Ninguém parece ter impedido ou punido essa pequena rebeldia.
As antigas escolas primárias térreas de Sofia, como a São Cirilo e Metódio, pareciam enormes aos olhos de uma criança. Décadas depois, muitas já haviam desaparecido. Dimitrov recorda também que eleições eram realizadas nesses prédios e podiam provocar discussões violentas e brigas sérias.
O pequeno rio do Boulevard Dragoman
Perto de casa corria um pequeno rio ao longo do Boulevard Dragoman. Para as crianças era uma atração irresistível. Em certa ocasião, Dimitrov entrou descalço no leito e pisou num pedaço de vidro. O corte sangrou bastante e o garoto correu para casa em pânico. A família fez um curativo, o sangramento parou e, como ele próprio relata com humor, veio também uma boa surra.
A grande enchente do rio Vladayska
Mais impressionante foi uma enchente do Vladayska. O rio transbordou e arrastou vigas, tábuas, montes de feno e até um bezerro pelas águas turvas em direção a Konyovitsa.
As crianças assistiam assustadas perto da área onde mais tarde existiria a Ponte de Ferro. Naquele momento, porém, a paisagem ainda era aberta e a força do rio dominava completamente o lugar.
Banhos no rio e dias inteiros ao sol
Dimitrov lembra com carinho dos dias de verão em que acompanhava a mãe e outras mulheres às margens do mesmo rio. Elas estendiam tecidos ao sol sobre a areia ainda não coberta por concreto.
As famílias chegavam cedo e só voltavam para casa no fim do dia. As crianças entravam na água, avançavam até o medo vencer a coragem e depois corriam de volta. Nadavam, mergulhavam e engoliam água sem preocupação. Depois passavam horas secando ao sol.
Ao anoitecer, já com frio e soluços, vestiam-se depressa, voltavam para casa com enorme apetite e dormiam profundamente.
Salgueiros, São Jorge e galhos para decorar as casas
Salgueiros cresciam nas duas margens. Na véspera do Dia de São Jorge, as crianças se esgueiravam entre as árvores para cortar galhos jovens. Eles serviam para decorar casas e também os cordeiros das famílias que podiam comprá-los para a celebração.
A feira de Páscoa diante da estação
A procissão em direção à feira da Páscoa ficou gravada na memória de Dimitrov. A festa acontecia numa grande área então vazia diante da estação ferroviária, perto da futura Rua Kozloduy.
Do alto, a criança observava um panorama cheio de gente, música, tambores, vendedores, atrações e construções temporárias. Depois descia correndo para o meio da feira e gastava todo o dinheiro recebido durante as visitas de Páscoa.
Voltava para casa tarde da noite depois de encontrar amigos e desconhecidos, ouvir músicas e participar das felicitações do feriado.
O inverno, os trenós e a pista de gelo improvisada
Os mesmos terrenos mudavam completamente no inverno. Crianças desciam de trenó pelas encostas e aproveitavam uma grande poça que, quando congelava, se transformava em pista de patinação.
Ficavam ali até escurecer, muitas vezes esquecendo o almoço. Dimitrov recorda os invernos como muito mais rigorosos que os de sua maturidade: neve grossa nas ruas e trenós puxados por cavalos abrindo caminho pela cidade.
As crianças esperavam uma oportunidade para saltar na traseira de um desses trenós e agarrar-se à barra transversal. O risco era serem descobertas pelo cocheiro e receberem uma chicotada.
O incêndio nos depósitos de ovos
Um dos grandes acontecimentos da infância foi o incêndio em depósitos de ovos próximos à futura alfândega. O fogo se espalhou rapidamente e, na percepção do menino, colocou metade de Sofia em alvoroço.
Depois que os bombeiros improvisados conseguiram controlar as chamas, começou a aventura infantil. As crianças improvisaram ganchos com galhos e arame e tentaram retirar dos escombros ovos que haviam sobrevivido, muitos já assados pelo calor. Comiam a “caça” menos por fome do que pelo orgulho de terem conseguido recuperá-la.
A velha casa da família e o porão da Guerra Russo-Turca
A casa paterna possuía um porão enorme. Segundo a avó, cerca de duzentas pessoas teriam se abrigado ali durante a Guerra Russo-Turca. Muitos anos depois, Dimitrov ainda encontrava baionetas velhas e enferrujadas no porão e as usava para ajudar a conduzir o trenó.
A casa tinha características típicas de residências antigas confortáveis: banheiro, nichos embutidos nas paredes usados para guardar roupas de cama e cobertores e um grande sofá onde a família passava longos períodos reunida.
As ruas tortas dos bairros judeus e turcos
Com a modernização de Sofia, Dimitrov sentia que a cidade ficava mais bonita, mas perdia sua antiga aparência patriarcal. Ele recorda especialmente as ruas estreitas e sinuosas em torno do centro, cheias de pequenas casas tortas, pátios e portões característicos.
Em muitos pontos predominavam famílias judaicas e turcas. Esses bairros possuíam vida própria e eram claramente distintos das zonas cristãs. Crianças cristãs nem sempre se aventuravam com tranquilidade por ali: brigas entre grupos infantis podiam terminar em pedradas, golpes de vara e discussões entre as mães.
O antigo banho público e os carregadores diante da entrada
No lugar do banho moderno, aproximadamente no jardim que depois surgiria diante dele, funcionava o antigo balneário que Dimitrov frequentava ainda muito pequeno com a mãe.
Com a camisa molhada e pesada, o garoto gostava de brincar batendo o tecido nas mulheres que passavam. Algumas riam, outras o repreendiam. Nos corredores, ele se inclinava para olhar através das tábuas corroídas pela umidade e via lá embaixo uma água azulada que, em sua imaginação infantil, parecia infinitamente profunda.
Diante do banho acumulavam-se mulheres carregando grandes trouxas. Carregadores, muitos deles ciganos, ofereciam-se para transportar os volumes. Entre os personagens lembrados estava Taki, homem muito baixo conhecido na cidade, e também Gele, famoso por sua carroça e pela paciência com que suportava as brincadeiras dos antigos moradores.
O circo, Ibish Aga e as barracas dos matrapazes
Na área onde mais tarde seriam construídos os Mercados Centrais existiu um circo frequentado por jovens e adultos. Um de seus personagens populares era Ibish Aga, figura lembrada como verdadeiro herói do cotidiano.
Dimitrov também lamenta o desaparecimento das fileiras de barracas conhecidas como matrapazite. Eram pequenos estabelecimentos de queijos, manteiga e outros laticínios. Desde cedo até o anoitecer, compradores enchiam o local.
Para as crianças pobres, os grandes recipientes de manteiga e queijo e as enormes rodas de kashkaval eram objetos de desejo.
Pátios, buxo, lilases e a aparência que desapareceu
O memorialista insiste que a velha Sofia merecia ter sido documentada em muito mais fotografias e descrições. As casas antigas possuíam pátios cheios de árvores, portões tradicionais, calçadas de pedra e pequenos jardins com flores comuns mas muito características: gerânios, sabugueiros, lilases e malvas.
Era uma arquitetura simples, mas dotada de uma atmosfera que ele considerava impossível de reproduzir depois que a modernização engoliu os antigos bairros.
Preservar a memória de uma cidade que já não existe
Dimitrov lamenta que, nos últimos anos anteriores à publicação de suas memórias, algumas das partes mais típicas da cidade continuassem sendo demolidas. Ele reconhece as vantagens do urbanismo moderno, mas defende que uma sociedade culta precisa preservar testemunhos de seu passado.
Ruas antigas, edifícios públicos e casas particulares poderiam, em sua opinião, ter sido mantidos como valores históricos capazes de mostrar às gerações futuras como a capital havia vivido e se desenvolvido.
Para ele, esses vestígios ligam geração a geração, pais a filhos, século a século. E como muito pouco restava fisicamente da velha Sofia, registrar suas histórias tornava-se uma obrigação de memória.