A chegada noturna depois de quinze horas de viagem
Depois de cerca de quinze horas em uma carruagem, Vico Mantegazza avistou ao longe alguns pontos de luz: era Sofia. A primeira impressão, registrada em 1886, estava longe de ser monumental. A entrada da jovem capital búlgara lembrava-lhe Pirot, com ruas estreitas, tortuosas e sem pavimentação, casas baixas e irregulares e um aspecto ainda marcado pela cidade otomana que sobrevivera à Libertação.
Somente depois de atravessar esse trecho antigo é que a paisagem urbana se abria. O viajante chegava à praça do antigo konak, então transformado em palácio principesco, e finalmente encontrava ruas mais retas, construções de dois pavimentos e iluminação organizada. A sensação descrita é quase física: como sair de uma caverna e entrar numa parte mais aberta da cidade.
Perto do antigo konak erguia-se o Hotel Bulgaria, um edifício de três andares que ofereceu ao viajante uma surpresa agradável. Depois das hospedagens de Niš e Pirot, Mantegazza já tinha se resignado à ideia de que demoraria para encontrar novamente um quarto confortável. Em Sofia, recebeu uma acomodação limpa, acolhedora e, acima de tudo, uma cama macia e elegante.
Serdica, Sofia e a escolha da nova capital
O relato então deixa a chegada e tenta situar historicamente a cidade. Ao norte de Sofia ainda se viam vestígios de antigas muralhas. O autor recorda Serdica, importante centro romano, e repete a tradição segundo a qual Constantino teria demonstrado grande apreço pela cidade. Também menciona a antiga igreja de Santa Sofia, cujas ruínas ainda testemunhavam a importância do edifício.
Na Idade Média, Sofia recuperou parte de sua relevância, embora Tarnovo e Preslav permanecessem, para a memória búlgara, capitais muito mais carregadas de simbolismo. Quando o novo Estado búlgaro foi organizado, Sofia acabou escolhida como capital. Mantegazza discute as possíveis razões: sua posição numa futura Bulgária ampliada, a rota que ligaria o comércio ocidental a Constantinopla e o peso geopolítico de uma capital próxima da Sérvia.
Segundo ele, a escolha não despertou entusiasmo imediato entre todos os búlgaros. A antiga Tarnovo continuava cercada de veneração histórica. Ainda assim, a população recém-saída de cinco séculos de domínio otomano não estava em posição de contestar decisões tomadas pelas grandes potências europeias.
Uma capital cercada por montanhas e extremos de temperatura
Mantegazza não achou bonita a posição de Sofia. A cidade ocupava uma planície cercada por montanhas, como se estivesse no centro de um anfiteatro. O campo aberto favorecia ventos vindos das passagens montanhosas e contribuía, em sua interpretação, para mudanças bruscas de tempo.
O viajante observa que quem chegava de Pirot subia durante horas antes de alcançar, quase sem perceber, a extensa planície de Sofia. No outono, o clima podia permanecer moderado até novembro. Então, de uma manhã para outra, a cidade podia despertar coberta por neve, enquanto Vitosha e as cadeias ao redor se apagavam em tons brancos e azul-acinzentados.
Ele descreve com atenção particular o silêncio produzido pela neve. Carroças, cavalos e grupos de camponeses pareciam deslizar sem ruído pelos caminhos cobertos. Em dias de mercado, caravanas trazendo produtos de outras partes da Bulgária atravessavam a planície branca como figuras de uma cena fantástica. Mantegazza compara a impressão ao efeito de observar um baile com os ouvidos tapados: tudo se move, mas o som desaparece.
De vinte graus negativos a quase quarenta positivos
As variações eram severas. O texto menciona invernos em que o termômetro descia a cerca de 20 graus abaixo de zero e verões que chegavam a 39 graus. Mudanças de dez a quinze graus no mesmo dia também eram registradas. A primavera, por contraste, era muito curta: durante poucos dias a planície se cobria de verde antes do calor do verão se impor.
A ideia de transformar o campo em parque
O autor cita propostas para tornar Sofia mais agradável e saudável. Uma delas era criar um grande parque junto à cidade, comparável ao Topčider de Belgrado, e plantar árvores pela planície. Como grande parte das terras pertencia ao Estado, ele julgava que a desapropriação não seria um obstáculo sério.
O príncipe Alexandre teria demonstrado interesse por essa transformação, mas a instabilidade política interrompera muitos projetos. Assim, a Sofia vista em 1886 permanecia dividida entre duas imagens: de um lado, a entrada irregular da velha cidade, ainda com ruas estreitas e casas baixas; de outro, a praça do palácio, o Hotel Bulgaria e os primeiros sinais de uma capital que tentava se europeizar rapidamente.
O contraste também aparecia na própria paisagem sazonal. No inverno, a extensa planície coberta de neve tornava montanhas e caminhos quase silenciosos; poucos meses depois, o verde surgia rapidamente e o pico de Vitosha ainda conservava neve quando a temperatura na cidade já se tornava agradável. Para Mantegazza, essa mudança brusca ajudava a explicar tanto o fascínio visual dos arredores quanto as dificuldades cotidianas de viver numa capital exposta a extremos de frio, calor e vento.