Recepções elegantes e uma cidade ainda sem conforto
Na última parte de seu relato de 1886, Vico Mantegazza volta-se menos para edifícios e mais para a vida social. Ele lembra que o príncipe havia ajudado a introduzir recepções e bailes de grande aparato. Numa celebração de consagração do palácio, centenas de convidados teriam visto uma decoração comparável à de eventos ocidentais. Com o tempo, fraque e gravata branca se tornaram quase obrigatórios em determinadas noites da temporada social.
As mulheres do corpo diplomático também influenciaram a moda local. Senhoras búlgaras abastadas começaram a abandonar parte das roupas prontas de Viena em favor de peças parisienses. Uma costureira francesa teria enriquecido rapidamente em Sofia; um alfaiate judeu-húngaro também formou clientela importante. Para o observador italiano, a elite aprendia depressa os códigos sociais europeus.
Mas essa fachada elegante contrastava com a infraestrutura de lazer. Mesmo o melhor restaurante da cidade não oferecia, segundo Mantegazza, os confortos refinados que um viajante esperaria. Havia apenas dois ou três cafés de destaque, e um deles funcionava como café-concerto, com uma orquestra feminina do tipo que se espalhara de Viena e da Hungria por várias cidades do Leste europeu.
Os cafés-concerto e o escândalo que tomou conta de Sofia
Essas orquestras tocavam repertório bastante variado, passando de Verdi a Mendelssohn ou Chopin. Os cafés-concerto se tornavam pontos de encontro de oficiais, funcionários e diplomatas. Como a figura da demi-mondaine ainda era rara em Sofia, qualquer musicista mais bonita atraía rapidamente um círculo de admiradores. O autor afirma que uma violinista de café-concerto quase provocou um incidente diplomático.
O episódio mais pitoresco envolve uma mulher romena que teria vivido algum tempo em Paris e chegado a Sofia cercada de luxo. Instalou-se numa bela residência financiada por um admirador, circulava em carruagem com brasão e lacaio e organizava jantares íntimos frequentados por jovens adidos, funcionários de legações e oficiais da corte. A pequena capital transformou sua presença em assunto permanente.
O escândalo aumentou quando se soube que um admirador gastara vários milhares de francos com ela. A história foi exagerada até virar, segundo Mantegazza, uma espécie de ameaça à economia de toda a juventude elegante de Sofia. Em outro episódio, ao conduzir a própria carruagem, ela teria atingido com o chicote um camponês que demorou a abrir caminho.
“Bonjour, Prince”
Sabendo que o príncipe Alexandre era solteiro, a mulher teria chegado com a ambição de tornar-se sua favorita. Certa vez, ao cruzar a carruagem do príncipe fora da cidade, aproximou-se, sorriu, fez um gesto familiar e o cumprimentou em francês: “Bonjour, Prince”. No dia seguinte, de acordo com o relato, recebeu um convite educado para deixar a capital. E partiu.
O Union Club como centro da vida estrangeira
Com a crise política de 1886, grande parte da vida social restante concentrava-se no Union Club. O clube havia sido criado para reunir estrangeiros que precisavam permanecer em Sofia por razões diplomáticas, comerciais ou profissionais e, principalmente, para lhes oferecer uma mesa melhor do que a disponível nos restaurantes da cidade.
O senhor Kaufman, representante da Krupp em Sofia, aparece no relato como figura central da administração cotidiana. O prédio do clube era modesto por fora, mas funcional: possuía sala de leitura com jornais europeus, sala para escrever, alguns salões, bilhar e uma sala de jantar recentemente ampliada. O conde de Sonnaz providenciou a Mantegazza uma autorização de entrada, permitindo-lhe conhecer rapidamente boa parte do corpo diplomático.
O representante britânico Lascelles presidia o clube. O autor também menciona o representante otomano, que para sua surpresa possuía cidadania romana concedida antes de 1870. Franceses e russos não frequentavam o local; isso fazia do salão um espaço particularmente livre para críticas à política russa em relação à Bulgária.
Correspondentes, bilhar e noites que raramente passavam da meia-noite
Logo após os acontecimentos de 9 de agosto, o Union Club chegou a reunir dezenas de correspondentes. Quando Mantegazza esteve ali, o grupo habitual era muito menor: antigos ajudantes do príncipe, funcionários das agências austríaca e britânica, o vice-cônsul italiano Acton, Kaufman, representantes diplomáticos, um homem da agência Havas e um correspondente do New York Herald.
Esse correspondente, chamado Pemberton no texto, chamou a atenção do viajante. Pequeno e já de idade avançada, compensava a aparência pouco heroica com enorme energia e domínio de várias línguas. Havia viajado pela Pérsia e acabara de percorrer a Bulgária acompanhando os movimentos do general Kaulbars durante a campanha política ligada às eleições.
A rotina do clube terminava cedo. À noite jogava-se whist e bilhar, normalmente até as onze. Só uma partida mais animada ou uma discussão política sobre alguma nova nota de Kaulbars fazia o grupo avançar até perto da meia-noite. É assim que Mantegazza encerra seu retrato da Sofia de 1886: uma capital politicamente tensa, socialmente pequena, mas já conectada às redes diplomáticas, comerciais e jornalísticas da Europa.