Em fevereiro de 1936, o jornal municipal de Sofia publicou um levantamento detalhado dos mercados da capital. O texto não se limita a nomes: informa localização, área, número de lojas, custos de construção, receitas, taxas, capacidade e até a quantidade de animais que passaram pelos mercados de gado. É um retrato administrativo de como uma cidade de rápido crescimento distribuía alimentos, animais e mercadorias.
Os mercados antes e depois da Libertação
Antes de 1878, Sofia já possuía vários pontos de comércio nos quais camponeses e moradores se encontravam em determinados dias. Perto da Páscoa e do Dia de São Jorge, multidões de aldeões chegavam à cidade para grandes feiras. Vendiam produtos agrícolas, animais, tecidos e artigos produzidos nas próprias aldeias.
Décadas depois, a lógica continuava visível. Em dias específicos, carroças e vendedores das aldeias próximas ainda ocupavam ruas e praças. A diferença era a tentativa da municipalidade de organizar esse movimento em mercados permanentes cobertos, mercados abertos e feiras temporárias.
O Mercado Central Coberto
O Mercado Central, conhecido como Halite, ficava na Rua Maria Luiza, diante dos banhos minerais. Era descrito como um edifício grande e representativo, cuja construção se estendeu entre 1907 e 1916.
O complexo concentrava lojas de alimentos, açougues e outros serviços num espaço protegido das condições climáticas. Sua implantação representava uma tentativa de substituir parte do comércio informal de rua por uma estrutura municipal permanente.
Vechtosharski: 139 lojas perto da estação de carga
O mercado Vechtosharski situava-se na esquina do Boulevard Stoilov com Slivnitsa, próximo à estação de carga. Era uma construção moderna de concreto armado, erguida em 1933 e 1934. O custo registrado chegava a 3,47 milhões de leva.
O edifício possuía dois pavimentos. No total havia 139 lojas: 61 no piso inferior e 78 no superior. O mercado contava ainda com café, restaurante, dependências de serviço, depósito, barbearia e instalações sanitárias.
As lojas eram alugadas pela administração municipal. A concentração de estabelecimentos num único prédio facilitava a fiscalização e criava uma fonte regular de receita para a cidade.
O mercado coberto da Praça Positano
Na Praça Positano funcionava o chamado Mercado do Sal, composto por dois pavilhões de construção simples. A área construída chegava a aproximadamente 1.917 metros quadrados e reunia sessenta lojas.
O mercado atendia sobretudo comerciantes de produtos alimentícios e mercadorias de consumo cotidiano. A localização central fazia dele um ponto importante na rede de abastecimento da capital.
O Zhenski Pazar
No Boulevard Dragoman ficava o Zhenski Pazar, formado por cerca de trezentas a quatrocentas barracas e coberturas simples de madeira. Diferentemente dos mercados cobertos, muitas estruturas pertenciam aos próprios vendedores, que pagavam à municipalidade pelo direito de ocupar o espaço.
O mercado se tornou um dos pontos comerciais mais conhecidos de Sofia. Produtos frescos vindos das aldeias, alimentos preparados e pequenos artigos domésticos conviviam em fileiras densas de barracas.
O mercado de flores de São Nicolau
No passageiro de São Nicolau havia um mercado especializado em flores. Era composto por cerca de 25 barracas de madeira pertencentes aos vendedores. A municipalidade cobrava taxas pelo uso do espaço, assim como no Zhenski Pazar.
O levantamento mostra como Sofia começava a separar funções comerciais: em vez de concentrar todos os produtos num único bazar, a cidade possuía pontos especializados por tipo de mercadoria.
Mercados de gado e números impressionantes
O mercado de gado era uma operação de escala muito maior. Em 1935, passaram por ele 169.678 animais. A estatística registrava 10.961 equinos, 21.265 cabeças de gado de grande porte, 134.910 animais menores e 12.542 suínos.
Mais de cinquenta mil animais pernoitaram no recinto ao longo do ano. A movimentação exigia currais, áreas de água, fiscalização veterinária e cobrança de taxas. O mercado era importante tanto para o abastecimento de carne quanto para o comércio rural da região de Sofia.
Feiras e mercados temporários nas ruas
Além das instalações permanentes, várias ruas e praças recebiam comércio em dias determinados. O relatório cita trechos da Rua Klementina, entre Sveta Nedelya e Hristo Botev, partes do Boulevard Dondukov e a própria Praça Sveta Nedelya.
Em festas religiosas e datas de feira, surgiam mercados temporários que ocupavam áreas livres durante algumas horas ou dias. Esse comércio fazia parte da tradição urbana muito antes de a municipalidade tentar discipliná-lo.
O matadouro e a fábrica de aproveitamento de carcaças
Próximo ao novo matadouro, estava em construção uma instalação destinada ao aproveitamento ou destruição de carcaças e carnes contaminadas. O objetivo era eliminar um problema sanitário antigo: animais mortos e resíduos de abate que antes podiam permanecer expostos ou ser descartados de forma inadequada.
A nova estrutura permitiria processar materiais impróprios para consumo e reduzir riscos à saúde pública. O fato de a obra aparecer no mesmo levantamento dos mercados mostra como abastecimento e higiene eram tratados como partes do mesmo sistema.
Mercados como fonte de receita municipal
A administração cobrava aluguel de lojas, taxas de barracas, direitos de entrada de animais e outros encargos. Esses valores ajudavam a manter os próprios mercados e formavam uma fonte estável de receita para Sofia.
O relatório de 1936 revela uma municipalidade que já administrava o comércio com lógica quase empresarial: calculava custos de construção, número de unidades, capacidade, movimento anual e rendimento de cada instalação.
Da feira tradicional à infraestrutura urbana
Em poucas décadas, a capital havia passado de feiras sazonais e comércio espalhado pelas ruas para uma rede diversificada de estruturas permanentes. O Mercado Central representava a modernidade arquitetônica; Vechtosharski reunia 139 lojas; Positano funcionava como mercado coberto de escala intermediária; o Zhenski Pazar preservava uma forma mais aberta e popular de comércio.
Ao mesmo tempo, mercados de gado, flores e feiras temporárias mantinham vínculos diretos com as aldeias ao redor da capital. Sofia ainda dependia intensamente do campo para alimentos, animais e produtos artesanais.
O valor desse levantamento está nos detalhes. Números como 169.678 cabeças de gado num único ano, centenas de barracas de madeira ou dezenas de lojas num pavilhão transformam a velha Sofia numa cidade concreta, com logística, cheiros, animais, carregadores e vendedores — muito além das fotografias monumentais do centro.
Animais, taxas e controle veterinário
O movimento do mercado de gado exigia mais do que espaço para compra e venda. Animais que permaneciam durante a noite precisavam de currais, água e alimentação, e a municipalidade acompanhava entradas e permanências porque cada operação gerava taxas. O registro de 1935, dividido entre equinos, bovinos, pequenos ruminantes e suínos, mostra um sistema de controle já bastante detalhado.
Esse mercado também estava diretamente ligado ao matadouro. A preocupação com carnes contaminadas e carcaças explica a construção de uma instalação específica para destruição e aproveitamento de resíduos. A administração tratava abastecimento, fiscalização veterinária e saúde pública como partes de uma mesma infraestrutura.
O comércio rural ainda entrava no centro
Apesar dos novos pavilhões de concreto e mercados cobertos, a capital continuava recebendo diariamente carroças e produtores rurais. A modernização não eliminou a feira tradicional: ela passou a conviver com edifícios municipais, regras de ocupação e cobrança de taxas.
Esse encontro entre estruturas antigas e novas ajuda a entender por que mercados como o das Mulheres permaneceram tão importantes. Eles ligavam diretamente o consumidor urbano às aldeias que cercavam Sofia e mantinham no centro da capital uma economia de pequena escala que os grandes pavilhões não substituíram completamente.