As memórias de Yordan Venedikov mostram a Sofia da Libertação pelo ponto de vista de uma família de comerciantes e fabricantes de sabão. Em vez de começar por ministérios ou edifícios públicos, o relato passa por sebo, oficinas, viagens comerciais, uma infância difícil e a busca por moradia numa cidade que mudava de função quase de um dia para o outro.
Do comércio em Salônica à fabricação de sabão
O avô de Venedikov, embora camponês da aldeia de Banya, na região de Razlog, trabalhava principalmente como comerciante em Salônica. A família mantinha relações comerciais com diferentes pontos dos Bálcãs.
O pai de Yordan percebeu que havia oportunidade em fabricar sabão mais perto dos mercados consumidores. Em vez de simplesmente recolher sebo e enviar matéria-prima para outros lugares, passou a produzir o próprio sabão e distribuir a mercadoria.
Além daquilo que fabricava, vendia sabão produzido por irmãos e parentes. A atividade cresceu gradualmente e passou a envolver também outros produtos ligados à gordura animal.
A oficina e o trabalho pesado
Venedikov recorda a oficina como um ambiente de trabalho duro. O cheiro do sebo, o calor das caldeiras e a rotina física deixaram impressão profunda. Ainda criança, ele precisou permanecer por longos períodos junto à produção.
O processo dependia de matérias-primas que chegavam de diferentes regiões. O pai combinava comércio, fabricação e transporte, atividade que exigia presença constante e relações com fornecedores.
A guerra muda os planos da família
Depois da Guerra Russo-Turca, assim que o armistício foi assinado, o pai foi até a aldeia e começou a organizar a mudança. A abertura de novas possibilidades em Sofia tornava a capital recém-libertada um destino natural.
A cidade, entretanto, estava longe de oferecer conforto. Havia falta de moradias adequadas e muitos edifícios tinham sido requisitados para funções administrativas ou militares.
Uma infância marcada pela oficina
Yordan descreve como passou um dos períodos mais difíceis da vida na fábrica de sabão. O ambiente lhe parecia opressivo, e a separação da mãe o afetava profundamente. Em determinado momento, ao reencontrá-la, atirou-se em seus braços e começou a chorar.
Essas lembranças pessoais dão ao relato uma dimensão diferente das histórias oficiais da Libertação. A transformação política do país aparece simultaneamente como mudança de residência, trabalho familiar e adaptação de crianças a uma cidade desconhecida.
O antigo konak do paxá
Entre os edifícios que marcaram a chegada da família estava o antigo konak, sede administrativa otomana. O conjunto havia funcionado como residência e centro de governo do paxá.
O escritório administrativo tinha organização mais próxima de modelos europeus, enquanto a residência privada seguia um padrão oriental. Os dois edifícios formavam um contraste visível dentro do mesmo complexo.
O harém e o pátio interno
A residência do paxá, incluindo o harém, ficava junto ao konak. O térreo era elevado em relação ao nível do solo e uma escadaria dupla conduzia à entrada. Nos fundos, voltados para a atual Rua Moskovska, havia um pátio pavimentado de forma triangular.
O local possuía anexos ligados às necessidades domésticas e aos animais. Naquela época, mesmo famílias relativamente abastadas mantinham vacas, e cada mahala possuía pastores responsáveis por reunir os animais.
A cidade depois da Libertação
Nos primeiros meses, a população vivia uma mistura de entusiasmo e incerteza. A guerra havia terminado, mas o futuro político ainda não estava completamente definido. A escolha de Sofia como capital e a eleição de um príncipe transformariam a cidade.
Para famílias como a de Venedikov, isso significava também uma corrida por espaço. Funcionários, militares, comerciantes e recém-chegados procuravam casas numa cidade que ainda possuía um estoque limitado de imóveis adequados.
A procura por uma casa
Yordan e o irmão saíram em busca de moradia no setor entre as atuais ruas centrais. Procuraram casa disponível e descobriram que quase tudo já estava ocupado ou reservado.
Quando voltaram e disseram ao pai que não haviam encontrado nada, a família precisou aceitar uma solução temporária. O pai alugou um espaço possível dentro das condições existentes.
O desaparecimento do edifício
O complexo onde a família havia se instalado não sobreviveria por muito tempo à transformação da capital. O antigo harém do paxá tornou-se uma das primeiras vítimas das obras urbanas que redesenhariam o centro.
À medida que Sofia passou a construir prédios administrativos, abrir ruas e reorganizar praças, estruturas do período otomano foram demolidas ou incorporadas a novos projetos.
Uma memória de Sofia vista pela família
O valor do relato de Yordan Venedikov está justamente na combinação de escalas. A Libertação aparece ao lado de uma caldeira de sabão; a escolha de Sofia como capital aparece ao lado da procura por uma casa; e o antigo konak surge não apenas como monumento, mas como espaço efetivamente usado por pessoas durante a transição.
Essa perspectiva doméstica ajuda a entender como a cidade mudou. A nova capital não nasceu somente de decisões políticas: foi construída por famílias que transferiram negócios, ocuparam prédios antigos, abriram oficinas e precisaram adaptar suas rotinas a uma Sofia em reconstrução.
A chegada da família em uma caravana de cavalos
Quando a mãe e os irmãos de Yordan finalmente deixaram a aldeia para se reunir ao pai em Sofia, não havia estrada carroçável adequada desde Razlog. A família viajou a cavalo. A mãe, a criada e as duas irmãs mais velhas seguiam sentadas sobre animais carregados, e cada uma das mulheres ainda segurava uma criança menor. Outros cavalos transportavam tapetes de lã e linho, cobertores, baús com utensílios de cobre e objetos domésticos.
Logo atrás vinha a numerosa família de Vasil Boyadzhiev, primo do pai e comerciante em Sofia. A caravana terminava com búfalos, vacas, bezerros e potros. Para Yordan, a cena lembrava uma migração de povos. Quando reencontrou a mãe, começou a chorar e lamentou a aldeia natal, que nenhum dos outros familiares voltaria a ver.
Por que o pai escolheu justamente o harém do paxá
O pai havia escolhido aquela residência por dois motivos práticos: ficava perto da fábrica de sabão e possuía estábulos grandes o suficiente para os animais trazidos pela família. O edifício residencial e o konak administrativo eram separados por uma rua estreita, de pouco mais de um metro, mas ligados por portões opostos e cercados por altos muros.
O térreo da residência ficava cerca de um metro e meio acima do solo. Uma escada dupla conduzia a um vestíbulo espaçoso, com quartos dos dois lados. Outra escada levava ao andar superior, onde havia um segundo vestíbulo iluminado por vidraças e quartos amplos e altos. Nos fundos, voltado para a atual Rua Moskovska, existia um pátio triangular calçado. Cozinhas, estábulos, depósitos e coberturas ocupavam o piso inferior dos anexos; acima havia quartos de empregados, celeiros e espaços de armazenamento.
As vacas das mahalas e o pasto onde surgiria Borisova Gradina
Venedikov lembra que praticamente toda família de Sofia com alguma condição mantinha pelo menos uma vaca. Cada mahala possuía um vaqueiro. O responsável pelo bairro do konak reunia os animais no terreno onde mais tarde surgiria o Jardim Real das Crianças e os levava para pastar numa área que seria ocupada por Borisova Gradina.
Essa observação simples mostra como a futura capital ainda misturava atividades urbanas e rurais no próprio centro. Animais domésticos, estábulos e pastagens faziam parte da rotina de famílias instaladas a poucos passos da administração do Estado.
Quem guardou as chaves do konak
Yordan acreditava que o pai havia recebido autorização para cuidar do conjunto. Uma tradição familiar dizia inclusive que o próprio paxá lhe entregara as chaves quando deixou a cidade. Como o pai possuía cerca de dez trabalhadores, teria conseguido proteger os edifícios durante o período de desordem.
A administração provisória ocupou rapidamente a parte de escritórios, enquanto a supervisão da residência permaneceu com ele. Segundo Venedikov, esse cuidado ajudou a manter o conjunto intacto quando outros grandes edifícios otomanos, como o Konak Azul da Praça Slaveykov e construções militares, foram destruídos pelo fogo.