Em janeiro de 1878, logo depois da entrada das tropas russas em Sofia, o voluntário francês Dick de Lonlay passou vários dias na cidade e registrou aquilo que viu: ruas largas para os padrões orientais, casas pintadas com afrescos, fontes públicas, mesquitas, bazares especializados, o konak, mercados e até um grande incêndio que quase alcançou um depósito de pólvora. Suas memórias oferecem um retrato raro da capital búlgara no momento da Libertação.
Quem foi Dick de Lonlay
Dick de Lonlay era francês e participou da campanha de 1877–1878 como voluntário no 26º Regimento de Cossacos do Don. Mais tarde reuniu suas lembranças no livro À travers la Bulgarie, souvenirs de guerre et de voyage par un volontaire au 26e régiment de cosaques du Don, publicado em Paris em 1888.
Por ter permanecido alguns dias em Sofia imediatamente após a entrada das tropas russas, pôde circular livremente e observar ruas, praças, casas, mercados e moradores antes que a modernização alterasse radicalmente o centro urbano.
Os redutos construídos em torno da cidade
Quando a guerra se aproximou, as autoridades otomanas reforçaram a defesa de Sofia. Além das antigas valas, foram construídos redutos em pontos elevados ao redor da cidade.
Lonlay cita o reduto de Slatina, controlando a estrada de Constantinopla; o Medzhidie, na estrada de Pazardzhik; outro voltado para Radomir; o Abdul Hamid, dominando a estrada de Niš e conhecido também como “Tabiya Judaica” por ter sido construído com mão de obra judaica mobilizada em Sofia; além de outras fortificações de acesso.
Segundo o relato, cerca de oito mil búlgaros trabalharam durante dois meses nesses redutos, armados com doze peças de artilharia de campanha.
O pânico antes da entrada russa
Até o fim de dezembro, parte da população acreditava que os russos não chegariam a Sofia. A situação mudou quando chegaram notícias de combates próximos e da derrota de forças otomanas.
Carroças, cavalos, bois e búfalos pertencentes a cristãos e judeus foram requisitados para transportar parte da população turca que abandonava a cidade.
Os cristãos também viviam em tensão. Podiam ouvir o combate perto de Gorni Bogrov e observar o clarão do incêndio de Poduyane, aldeia próxima às portas da cidade incendiada por combatentes circassianos em retirada.
4 de janeiro de 1878: os primeiros cossacos entram em Sofia
Na manhã de 4 de janeiro, por volta das nove horas, os primeiros soldados russos entraram em Sofia. Eram cossacos de Kuban. Desde antes do amanhecer perseguiam os últimos grupos de bashi-bazouks e conseguiram proteger a ponte sobre o Iskar de um incêndio iniciado durante a retirada.
Uma cidade de 40 a 50 mil habitantes
Lonlay estimou a população em quarenta a cinquenta mil habitantes, aproximadamente um terço muçulmano. Considerava Sofia uma posição estratégica de grande importância por estar instalada numa ampla planície servida pelo Iskar e seus afluentes.
Cinco grandes estradas saíam da cidade em direção a Niš, Radomir, Orhaniye, Pazardzhik e Constantinopla.
Ruas surpreendentemente largas e casas cheias de cores
Algo chamou a atenção do observador francês: muitas ruas eram mais largas do que ele esperava de uma cidade do Oriente e parte delas tinha pavimentação que, embora rústica, lhe pareceu menos agressiva aos pés do que as pedras pontiagudas encontradas em outros lugares.
Árvores ladeavam algumas vias e ofereciam sombra no verão.
As casas eram em grande parte térreas. Lonlay as comparou a moradias espanholas e italianas. Muitas fachadas claras traziam pinturas decorativas: arabescos, versos do Alcorão, leões, paisagens sem perspectiva e outros motivos.
Ele se detém numa fachada pintada de azul-prussiano que exibia um grande navio a vapor desenhado de maneira tão ingênua que lhe lembrou brinquedos fabricados em Nuremberg.
Lama no inverno e fontes em quase todas as ruas
A limpeza urbana, porém, recebeu críticas. No inverno, as ruas ficavam cobertas por lama espessa. Naqueles dias específicos, uma forte nevasca havia congelado o terreno e facilitado a circulação.
Lonlay observou também a grande quantidade de fontes públicas. Muitas tinham pequenas coberturas em forma de cúpula, placas de mármore com inscrições douradas e bicas ornamentadas como cabeças de leão em bronze.
A água de Sofia lhe pareceu extraordinariamente fria e límpida. Pequenos recipientes ficavam disponíveis em nichos para que os passantes pudessem beber.
As principais mesquitas vistas por Lonlay
Entre os edifícios religiosos muçulmanos, o francês destacou várias mesquitas.
Büyük Jamia
A Grande Mesquita, situada diante do consulado francês, era um edifício amplo e retangular de tijolos vermelhos. Lonlay ficou impressionado com a atmosfera do interior, iluminado por pequenas placas de vidro encaixadas em molduras de chumbo.
Çelebi Jamia
A chamada mesquita governamental, próxima ao konak, era menor, porém mais graciosa. Tinha paredes rosadas, cúpula revestida de chumbo e minarete delgado decorado com arabescos azuis de terracota.
No dia de sua visita, milhares de corvos pousavam sobre o edifício e apareciam como pontos negros contra as paredes cor-de-rosa.
Num pequeno jardim cercado por ripas verdes havia sepulturas de autoridades turcas, marcadas por placas de mármore branco com inscrições douradas e elementos esculpidos em forma de turbante ou fez.
A mesquita do grande mercado
Outra mesquita próxima ao mercado tinha fachada e torre do minarete revestidas por relevos coloridos de terracota. Para Lonlay, a exuberância lembrava vagamente a fachada da Ópera de Paris.
A mesquita das grandes árvores
Uma mesquita menor chamava atenção sobretudo por uma árvore gigantesca diante do pórtico, tão alta que ultrapassava visualmente a lua de metal dourado instalada no topo do minarete.
Santa Sofia transformada em depósito
Na entrada da cidade pela estrada de Orhaniye, Lonlay encontrou uma antiga mesquita parcialmente em ruínas, a Siyavush Pasha Jamia. O edifício era, na realidade, uma antiga igreja búlgara transformada em mesquita depois da conquista otomana.
Construída em tijolos e com planta cruciforme, a estrutura recebera um minarete cuja parte superior já havia caído. No século XIX, deixou de funcionar como mesquita e passou a ser usada como depósito de alimentos.
Diante dela havia um quartel de cavalaria adaptado como hospital militar turco.
O bazar e as ruas organizadas por ofício
Como em muitas cidades orientais, Sofia possuía um grande bazar formado por várias ruas comerciais interligadas.
Cada ofício ou mercadoria tinha sua área: açougueiros, padeiros, merceeiros, ourives, cambistas e outros comerciantes concentravam-se em trechos específicos.
A rua dos ourives e cambistas ocupava parte de um antigo caravanserai com arcadas e galerias decoradas por afrescos coloridos.
Naquele momento, porém, o local apresentava sinais de saque: grades arrancadas, portas de ferro quebradas, ferragens destruídas e o chão coberto de papéis, panos e vidro.
Numa loja de cambista, Lonlay viu um grande cofre veneziano derrubado no chão e arrombado com barras de ferro.
Mercado de usados e mercado dos sapateiros
O mercado de objetos usados chamou atenção pelo telhado feito de largas folhas metálicas apoiadas sobre vigas. Pequenos furos em forma de estrelas e luas permitiam a entrada de luz.
No mercado dos sapateiros vendiam-se chinelos de couro amarelo e botas avermelhadas sem salto. A cobertura central era sustentada por uma larga coluna envolta por uma estrutura pintada em muitas cores, composição que o francês comparou às fardas da Guarda Suíça do papa.
A praça diante do konak
Uma das praças mais curiosas para Lonlay ficava diante do konak, o palácio administrativo otomano. Era ampla e possuía gramados, árvores, fontes e caminhos de areia, aproximando-se da ideia de um jardim inglês.
Num dos lados se erguia uma torre de relógio quadrada, coberta por um telhado de zinco que o visitante comparou a um funil gigantesco. Quatro mostradores de relógio ocupavam as faces da torre.
O próprio konak era um grande edifício recém-construído. Na fachada apareciam o crescente e a estrela e uma placa com a tughra do sultão Abdul Hamid.
Carruagens, equipamentos militares e material de combate a incêndios
O pátio do konak funcionava como um grande depósito. Ali estavam as carruagens cerimoniais de Mahzar Pasha, fabricadas em Viena, além de veículos usados pelo harém e carros militares.
O terreno também estava cheio de utensílios, armas, recipientes e equipamentos para combater incêndios: baldes de lona, ganchos enormes e pequenas bombas manuais de cobre com mangueiras reforçadas.
Esse material era importante numa cidade em que grande parte das construções utilizava madeira e podia arder rapidamente.
O incêndio perto da Grande Mesquita
No dia seguinte à chegada de Lonlay, enquanto jantava no consulado francês, tiros ecoaram pela rua. Era uma forma tradicional de anunciar incêndio. Ao mesmo tempo ouviu-se o grito de alerta: yangın var, “há fogo”.
O francês seguiu para o local, próximo à Grande Mesquita. O incêndio havia começado numa farmácia e numa oficina química.
As chamas assumiam cores amarelas, vermelhas, azuis e verdes conforme consumiam diferentes substâncias. Faíscas subiam como fogos de artifício e fachadas e minaretes ganhavam reflexos avermelhados.
A rua encheu-se de moradores carregando colchões, malas, crianças e pertences. Judeus, búlgaros e soldados corriam com ganchos e bombas manuais, gritando em diferentes idiomas.
O depósito de pólvora que poderia destruir metade de Sofia
O incêndio tornou-se especialmente perigoso porque muito perto havia uma antiga mesquita convertida em depósito de pólvora. Segundo Lonlay, milhares de quilos de explosivos estavam armazenados ali.
Soldados subiam nos telhados, molhavam tábuas, derrubavam paredes com machados e ganchos e direcionavam bombas de água contra as chamas. Generais, oficiais e o vice-cônsul francês acompanhavam o combate.
Finalmente, uma casa atingida foi derrubada, criando uma faixa sem material combustível. O fogo perdeu força e o bairro densamente habitado escapou de uma explosão que poderia ter causado uma catástrofe muito maior.
O Mercado de Gado e as execuções
Lonlay descreveu ainda o Mercado de Gado, praça triangular com uma grande fonte no centro. A multidão reunia roupas búlgaras, judaicas e rurais que lhe pareceram extremamente pitorescas.
O local carregava também uma memória sombria. Segundo testemunhos que ouviu, execuções de búlgaros haviam ocorrido ali durante os últimos meses do domínio otomano. Os enforcamentos eram feitos à noite, para que os corpos fossem vistos na manhã seguinte e servissem de advertência à população.
Na última execução mencionada por ele, dezesseis pessoas teriam sido enforcadas por acusações que o francês considerou absurdamente leves, como cantar uma canção patriótica ou declarar que os russos chegariam no ano seguinte.
Os bairros periféricos e o rio Vladayska
Lonlay observou que muitos ciganos viviam nas bordas da cidade, especialmente na direção da estrada para Niš. O rio Vladayska atravessava essa região e era cruzado por uma ponte antiga.
Do outro lado havia um extenso cemitério muçulmano ocupando parte de uma área ligada à Sofia medieval. Entre as sepulturas ainda se podiam distinguir ruínas de uma antiga igreja cristã.
Zadushnitsa nos cemitérios
O viajante também registrou o costume da zadushnitsa, celebração em memória dos mortos. Parentes levavam alimentos aos túmulos e os deixavam ali antes de retornar no dia seguinte.
Lonlay interpreta com ceticismo a crença de que os mortos consumiam a comida durante a noite e observa que os muitos cães soltos da cidade provavelmente eram os verdadeiros responsáveis pelo desaparecimento.
A partida de Sofia em 12 de janeiro
Na manhã de 12 de janeiro, Lonlay deixou Sofia. Passou pelos grandes cemitérios muçulmanos ao sul e tomou a estrada de Filipópolis, seguindo entre duas elevações onde se encontravam os redutos Medzhidie e Slatina.
Seu relato encerra-se aí, mas preserva um dos retratos visuais mais detalhados da cidade justamente no instante em que o poder otomano terminava e a futura capital búlgara começava uma transformação que apagaria grande parte daquela paisagem.