Em 1915, Dimitar Shishmanov publicou em alemão, no Deutsche Balkanzeitung, um conjunto de impressões sobre Sofia. O texto foi recuperado décadas depois pela revista Serdika. Em vez de descrever palácios ou instituições, Shishmanov procurou aquilo que a modernização estava empurrando para as margens: pequenas igrejas sem monumentalidade, casas antigas quase sufocadas por edifícios novos e interiores silenciosos onde ainda sobreviviam hábitos de outra época.

Uma cidade jovem que parecia não ter passado

Para Shishmanov, Sofia era uma cidade nova em quase todos os sentidos. Sua característica principal não estava em monumentos ou praças, mas na velocidade do crescimento. A capital avançava rapidamente, destruindo ou substituindo o que era velho e exibindo o espírito empreendedor de seus moradores.

À primeira vista, parecia faltar a Sofia aquilo que tantas cidades do Sudeste europeu possuíam: recantos antigos capazes de formar um coração histórico claramente visível. A cidade ainda era jovem demais para que o visitante percebesse imediatamente esse tipo de espaço.

Mas a impressão, dizia ele, era enganosa. Havia uma velha Sofia cuidadosamente escondida do ruído moderno, desconhecida até por muitos moradores. Ela só se revelava a quem a procurasse deliberadamente.

As pequenas igrejas perto de Santa Nedelya

Entre os exemplos estavam três igrejas muito pequenas nas proximidades da Catedral de Santa Nedelya: São Nicolau e as antigas igrejas de Santa Petka. Durante o dia, podiam parecer humildes. Ficavam parcialmente enterradas, tinham paredes caiadas em tons claros e janelas estreitas. Cercas antigas e pequenas cúpulas eram praticamente os únicos sinais de que se tratava de templos.

Ao pôr do sol, porém, a impressão mudava. O contraste entre a pequena igreja e o movimento da cidade criava, para o autor, uma atmosfera quase fora do tempo.

Descer para uma igreja era entrar em outro mundo

Shishmanov recomenda visitar uma dessas igrejas no fim do dia. Como o piso estava abaixo do nível da rua, o visitante descia alguns degraus e sentia que deixava o espaço urbano moderno para entrar numa zona separada.

O interior era silencioso e pouco iluminado. O dourado envelhecido do altar mal refletia a luz. Esculturas antigas envolviam os ícones, e as auréolas prateadas dos santos devolviam um brilho pálido. Uma lâmpada diante das portas reais projetava tons avermelhados sobre a imagem de Cristo.

Ao longo das paredes havia fileiras de assentos de madeira entalhada. O piso de pedra conservava placas de mármore com inscrições quase apagadas. O autor imaginava que algumas pudessem ter pertencido a igrejas ainda mais antigas, já desaparecidas da memória urbana.

Lâmpadas de zinco, ícones e um saltério coberto de poeira

Nos cantos permaneciam objetos que já não faziam parte da vida cotidiana: antigas lâmpadas de zinco e pequenos ícones trabalhados com grande paciência. Num nicho escuro repousava um velho saltério encadernado em couro grosso, coberto de poeira.

Em suas páginas, mãos de outras gerações haviam anotado acontecimentos considerados dignos de memória: terremotos, epidemias, fome. O livro funcionava, para Shishmanov, como uma pequena crônica paralela da cidade.

A alma da antiga Sofia escondida do barulho

O visitante que permanecesse algum tempo naquele ambiente acabaria percebendo que as igrejas estavam carregadas pelas orações e pelos sofrimentos de várias gerações. Eram vestígios de uma cidade em que hábitos, ritmos e formas de vida eram completamente diferentes.

Shishmanov chama essa presença de “alma da antiga Sofia”: uma alma severa, marcada por provações, que se recusava a desaparecer e parecia ter se refugiado na pequena igreja para não ser levada pelo fluxo da cidade nova.

Ao voltar para a rua, bondes, automóveis e multidões pareciam momentaneamente agressivos. Os olhos demoravam a se adaptar novamente ao movimento moderno.

Casas antigas entre prédios altos

O mesmo sentimento aparecia diante das casas antigas. Em meio às largas ruas e aos novos edifícios monumentais, um transeunte podia de repente encontrar uma residência baixa cercada de jardim. A mudança de escala despertava uma sensação de familiaridade, como ouvir novamente um apelido da infância.

Restavam poucas dessas casas. Algumas conservavam pequenos jardins que floresciam na primavera com clematites, shiboi e lilases. Outras estavam encostadas diretamente nas ruas e quase desapareciam sob a sombra dos prédios vizinhos, cujas vitrines podiam ser maiores que a fachada inteira da construção antiga.

O velho espírito não estava morto

Ao lado dos grandes edifícios onde a vida fervia dia e noite, as pequenas casas pareciam mortas. Para Shishmanov, era apenas aparência. Dentro delas permanecia o verdadeiro espírito antigo da cidade.

Esse espírito havia recuado diante do ruído da modernidade, mas não desaparecido. O autor acreditava que um dia a cidade perceberia que modelos arquitetônicos copiados mecanicamente de países distantes não podiam substituir formas desenvolvidas para o clima e a vida locais.

Como eram construídas as casas da velha Sofia

As pequenas casas haviam sido erguidas por mestres que não frequentaram escolas especializadas e possuíam poucos conhecimentos técnicos formais. Mesmo assim, segundo Shishmanov, entendiam perfeitamente como construir sobre solo búlgaro e sob o sol do Oriente.

O pavimento superior devia ser mais largo e mais alto que o térreo. No lado sul, uma varanda ampla, o chardak, permitia que mulheres idosas trabalhassem e se aquecessem ao sol. O telhado não precisava ser exageradamente alto. Diante da porta, um pequeno alpendre coberto se apoiava sobre colunas de madeira ligadas por um arco curvo.

As janelas do térreo eram quadradas e muitas vezes agrupadas aos pares; no piso superior podiam terminar em arcos suaves. O conjunto não obedecia a uma teoria acadêmica, mas a proporções transmitidas pela prática.

Bonitas ou feias era a pergunta errada

O autor dizia que, ao observar cuidadosamente aquelas casas, era difícil decidir simplesmente se eram bonitas ou feias. Comparava a pergunta à ideia de julgar a beleza da própria mãe. As formas tinham valor porque correspondiam a uma necessidade interior e a uma ideia de proporção familiar à cultura local.

Os últimos moradores

As casas eram silenciosas. Quase nunca se viam pessoas entrando ou saindo com a pressa típica dos edifícios modernos. Muitas eram ocupadas por idosos cujos filhos haviam se espalhado pelo mundo ou se mudado para apartamentos novos. Os pais permaneciam nos antigos ninhos para viver os últimos anos segundo os hábitos que conheciam.

Uma sala vista pela janela ao entardecer

Shishmanov imagina então o interior de uma dessas casas. O piso está coberto por esteiras desbotadas. Um banco baixo percorre a parede. No centro há uma mesa redonda. Uma mulher idosa se senta sobre almofadas e leva a comida à boca lentamente, iluminada por uma lamparina num velho candelabro de bronze.

Perto de um braseiro, um homem prepara café com atenção quase ritual. Observa a bebida ferver uma, duas, três vezes e retira a cafeteira no instante antes de transbordar. Depois serve pequenas xícaras decoradas com flores amarelas e se senta ao lado da mulher.

Para um observador na rua moderna, mesmo alguém acostumado a viver “à maneira europeia”, a cena despertaria lembranças de algo mais antigo e familiar. É esse sentimento que organiza todo o texto: Sofia podia se modernizar em velocidade impressionante, mas ainda carregava, escondidas entre igrejas rebaixadas e casas silenciosas, formas de vida que não haviam desaparecido por completo.

O passado como parte da cidade moderna

Shishmanov não defendia transformar Sofia num museu imóvel. Seu incômodo estava na possibilidade de a modernização apagar tudo aquilo que havia sido produzido de forma orgânica pelas gerações anteriores. Para ele, as pequenas igrejas e casas antigas não competiam com a cidade nova; davam a ela uma profundidade que os edifícios recém-construídos ainda não possuíam.

Escrito em 1915, o texto registra um momento especialmente importante: muitos dos lugares descritos ainda existiam, mas já pareciam frágeis diante da expansão urbana. Por isso, a sensação de perda atravessa toda a narrativa.