Mihail Tenev chegou a Sofia poucos meses depois da Libertação. Mais tarde conhecido como financista, banqueiro e político, deixou uma descrição minuciosa da cidade que encontrou: população pequena, ruas sem pavimento, áreas alagadiças, dezenas de mesquitas, pequenas igrejas, hans em vez de hotéis e uma vida pública que começava a se reorganizar.

Uma cidade de cerca de 11 mil habitantes

Até a Libertação, Sofia era sede de vilaiete otomano e centro do governador. Quando Tenev chegou, cerca de nove meses depois, a população era estimada em aproximadamente 11 mil pessoas.

A cidade reunia búlgaros, judeus, turcos e outros grupos. Parte da população muçulmana havia partido durante a guerra, enquanto funcionários, militares e comerciantes ligados ao novo Estado começavam a chegar.

Ruas estreitas, lama e pouca pavimentação

Com exceção de algumas vias principais, como a antiga Tsarigradska — atual Tsar Osvoboditel — e Vitosha, grande parte das ruas era estreita, irregular e sem pavimentação adequada. Em dias de chuva, lama e água dificultavam o trânsito.

Muitas casas eram baixas, cercadas por pátios e muros. Cemitérios antigos ocupavam terrenos próximos a igrejas e bairros. A reorganização posterior eliminaria boa parte dessa paisagem.

Perlovska, Vladayska e os terrenos alagadiços

A leste e oeste corriam os rios Perlovska e Vladayska. Um canal derivado do Vladayska passava por áreas que depois se tornariam ruas centrais. Em torno do atual Teatro Nacional e do Ministério da Guerra, a água formava terrenos pantanosos, às vezes difíceis de atravessar.

Águas dos banhos públicos também criavam zonas úmidas. O problema de drenagem permaneceria por anos e exigiria obras da nova municipalidade.

O konak, as mesquitas e as igrejas antigas

Entre os edifícios públicos mais importantes estava o konak do governador, reformado e ampliado para servir de residência ao primeiro príncipe búlgaro, Alexander I.

Tenev lembrava cerca de quinze mesquitas. Muitas foram demolidas em 1879 e 1880. A Buyuk foi preservada e passou a abrigar instituições públicas antes de se transformar em Museu Arqueológico. A Mesquita Negra funcionou como depósito e prisão e, em 1903, tornou-se a Igreja dos Sete Santos. Banya Bashi permaneceu como casa de oração muçulmana.

Entre as igrejas antigas estavam Santa Sofia, São Jorge, Santa Petka, São Nicolau e Santa Nedelya. Muitas eram pequenas, baixas e parcialmente enterradas, com janelas estreitas e sinos substituídos por tábuas de madeira.

Kere-charshiya e os mercados de ofícios

No terreno onde depois se ergueria a General Bank e nos arredores existia o mercado coberto conhecido como Kere-charshiya, onde trabalhavam sapateiros e tintureiros.

Perto de São Nicolau ficava a charshia dos peleiros, enquanto a futura Rua Targovska concentrava comerciantes de tecidos. Esses mercados especializados organizavam a economia urbana por ofício.

Não havia hotéis: havia hans

Tenev afirma que Sofia não possuía nenhum hotel no sentido moderno. Como outras cidades provinciais otomanas, dependia de hans, hospedarias que reuniam quartos, estábulos, pátios e alimentação.

O mais importante era o Han de Hadji Mano, que por muito tempo funcionou ao mesmo tempo como hotel, restaurante e taverna. Possuía estábulo e recebia carruagens e coches que faziam a ligação entre Sofia e cidades do interior.

Outros endereços lembrados eram Sharen Han, Gakev Han na Praça Trapezitsa e o han de Kara Dimitar perto da igreja de São Spas.

Poços e fontes antes do sistema moderno de água

Antes e logo depois da Libertação, os moradores dependiam de poços nos pátios. Algumas fontes públicas recebiam água de um antigo sistema de abastecimento.

Entre os pontos citados estava Kuru Cheshme, num cruzamento correspondente a ruas atuais, além de fontes nas praças Slaveykov, Banski e Hadji Mano e dentro do mercado coberto.

O restaurante do francês Geri

Com a chegada de oficiais e funcionários do governo central, surgiu a necessidade de locais mais organizados para refeições. Um francês chamado Geri, que já vivia em Sofia antes da guerra, abriu um restaurante considerado adequado ao novo público.

O estabelecimento é lembrado como um dos primeiros sinais de uma vida social urbana moldada pelos recém-chegados.

A barraca que virou Parlamento e teatro

A administração de ocupação russa construiu rapidamente uma grande estrutura de madeira num terreno próximo à futura prefeitura. Primeiro serviu de clube para oficiais.

Depois de reparada, a mesma barraca recebeu sessões extraordinárias e regulares da primeira Assembleia Nacional em 1880. O edifício também entrou para a história cultural: ali foi apresentada a peça búlgara Ivanko por atores amadores.

Pouco depois da segunda apresentação, a estrutura pegou fogo e foi destruída.

Escolas e participação na luta eclesiástica

Antes da Libertação, os moradores de Sofia já participavam ativamente da luta contra o controle do Patriarcado Grego de Constantinopla. A cidade possuía escola de classes desde 1849, construída no pátio de Santa Nedelya com apoio do benfeitor Denkoglu.

Entre os professores conhecidos estavam Konstantin Gerov e Sava Filaretov. Havia também escola para meninas fundada por Dimitar Traykovich, a associação feminina Mayka criada por Yordanka Filaretova e uma escola dominical.

Slavyanska Beseda e a primeira vida cultural moderna

Em maio de 1880 foi fundada a sociedade Slavyanska Beseda por iniciativa de tchecos chamados a trabalhar no novo Estado, oficiais russos e funcionários búlgaros.

A organização pretendia fortalecer a convivência eslava, criar sala de leitura, promover palestras, passeios, música, canto, ginástica e concertos. Muitos funcionários públicos se tornaram membros.

No início, as duas salas modestas serviam sobretudo para leitura de jornais e conversas. Em poucos anos, começaram concertos, noites culturais e apresentações. Durante muito tempo, antes da construção do Clube Militar, a Slavyanska Beseda foi um dos poucos centros sociais e culturais da capital.

Uma aristocracia local e os primeiros prefeitos

Tenev também se surpreendeu com a existência de uma espécie de elite feminina local formada por esposas de cidadãos influentes. Algumas recebiam títulos informais associados ao prestígio da família. A viúva de Sava Filaretov, considerada particularmente culta e respeitada, era chamada de “madame”.

O memorialista registra ainda os primeiros prefeitos e administradores locais do período pós-Libertação, nomes que participaram da transformação de uma cidade otomana provincial em capital.

O retrato de Mihail Tenev é valioso porque descreve Sofia antes de suas grandes avenidas e palácios. Hadji Mano, Kere-charshiya, os hans, as fontes públicas e a barraca parlamentar pertencem a uma cidade que desapareceu em poucas décadas.

Casas particulares que marcavam a cidade

Tenev também anotou os nomes de famílias cujas residências de dois pavimentos se destacavam numa cidade dominada por construções baixas. Entre elas estavam casas ligadas a Hadji Mano Stoyanov, Dimitar Hadji Kotsev, Manolaki Tashev, Yordanka Filaretova, Hristo Stoyanov, Dimitar Traykovich, Solomon Tadjer, Davichon Levi, Leon Cohen e outros comerciantes e figuras conhecidas.

Essas casas funcionavam como marcos urbanos antes da construção dos grandes edifícios públicos. Muitas desapareceriam quando ruas foram alargadas e quarteirões centrais receberam novas construções.

A cidade ainda usava água de poços

O abastecimento de água ajuda a dimensionar o estágio da infraestrutura. Muitas famílias dependiam de poços cavados nos próprios pátios. As poucas fontes públicas alimentadas por um antigo aqueduto eram pontos importantes da vida diária e podiam dar nome a ruas ou cruzamentos.

Kuru Cheshme era uma dessas referências. Outras fontes existiam na Praça Slaveykov, na região dos banhos e perto de Hadji Mano. Antes do sistema moderno de água, buscar água fazia parte da rotina doméstica mesmo no centro administrativo do país.

Da leitura de jornais aos concertos da Slavyanska Beseda

A Slavyanska Beseda começou com duas salas modestas onde funcionários liam jornais e conversavam. Em poucos anos, porém, passou a organizar concertos, palestras, noites sociais e apresentações. O número de associados, inicialmente em torno de 150, cresceu para milhares ao longo das décadas.

Para Tenev, a instituição simbolizava a velocidade da transformação. Uma cidade que praticamente não possuía locais de entretenimento moderno antes de 1878 criava, em poucos anos, associações culturais, restaurantes, parlamento e uma nova administração.