Em 1932, a revista ilustrada búlgara Niva dedicou uma edição especial a Sofia. O projeto tentava reunir passado, presente e futuro da capital numa sequência de textos históricos. A primeira parte voltava muito antes de Sofia se tornar capital da Bulgária: começava nos vestígios pré-históricos da planície, passava por Serdica romana e Sredets medieval e terminava com a queda da cidade diante dos otomanos.
A cidade que nasceu junto às águas termais
Sofia ocupa a planície formada entre Vitosha e Stara Planina, atravessada pelo rio Iskar e seus afluentes. O núcleo inicial da cidade ficava entre os pequenos rios Perlovska e Vladayska, antes de se expandir para leste e oeste. A antiga povoação cresceu em torno da fonte termal das termas, uma localização que combinava água, passagem natural e posição geográfica favorável.
O texto de 1932 lembrava que não é possível fixar uma data exata para o primeiro povoamento. Achados de cerâmica decorada e ferramentas de sílex e pedra próximos a Kurilo indicavam presença humana desde o Neolítico. Objetos semelhantes haviam aparecido em assentamentos próximos a Novi Khan, Gorni Bogrov e Chelopechene.
Da Idade do Cobre, correspondente ao final do terceiro milênio antes de Cristo, eram conhecidos poucos vestígios: uma picareta de cobre encontrada perto de Kremikovtsi, outra nas proximidades de Bukovets, no município de Batuli, e três machados de cobre na região de Slivnitsa. Duas pulseiras maciças de bronze, uma achada na Ponte Colorida de Sofia e outra em Bukovets, eram atribuídas ao início da Idade do Ferro.
A planície ainda conservava numerosos túmulos espalhados, sobretudo a leste da capital. Alguns apareciam isolados; outros formavam pequenos ou grandes grupos. Para os autores, esses montes eram parte essencial da paisagem arqueológica da velha Sofia.
Vitosha, Iskar e os nomes conhecidos pelos autores antigos
Os arredores de Sofia já apareciam em textos clássicos. Tucídides, no século V a.C., mencionava Vitosha como Skomios e o Iskar como Oskios; Aristóteles usava para a montanha a forma Skombros. Heródoto também registrava o rio Iskar sob o nome Skios.
O rio chegou a ser personificado na cunhagem local. Uma moeda serdiciana da época de Marco Aurélio mostra a divindade fluvial reclinada, segurando um junco na mão direita e apoiando a esquerda num cântaro. Em outra moeda, da época de Caracala, a figura aparece deitada, com espigas na mão e um jarro tombado do qual a água corre.
Segundo Tucídides, ao norte de Vitosha viviam os Treri e os Tilatei. No fim do século I a.C., a região de Sofia era associada aos Serdi, enquanto os Meldi ocupavam áreas próximas a Dragoman.
Da Trácia macedônica à Serdica romana
As disputas entre tribos trácias no século IV a.C. abriram caminho para Filipe II da Macedônia anexar a Trácia ao seu reino em 341 a.C. Alexandre, o Grande, também teria atravessado a região de Sofia quando retornava de uma campanha ao Danúbio.
Depois que a Macedônia se tornou província romana em 146 a.C., seus territórios foram divididos administrativamente. A região dos Serdi formou Serdica, sede de um governante. O texto atribui o futuro prestígio urbano sobretudo ao imperador Trajano, sob quem a cidade recebeu o nome de Ulpia Serdica.
Achados de monumentos e fundações antigas indicavam que a cidade romana ocupava principalmente o centro da Sofia moderna. Descobertas nas proximidades da igreja de São Spas, da Rua Positano, da academia espiritual e de São Jorge reforçavam essa leitura. Já no período romano, Serdica era cercada por muralhas; restos dessas fortificações continuaram a ser descritos em épocas posteriores.
Septímio Severo, Aureliano e a importância de Serdica
Após Trajano, as fontes se tornam menos detalhadas, mas o texto destaca Septímio Severo como outro imperador associado ao desenvolvimento da Trácia e de Serdica. Um novo período se abriu com Aureliano, entre 270 e 275. Em 271, a caminho de Bizâncio, ele provavelmente atravessou Serdica.
Diante da impossibilidade de manter a antiga província da Dácia ao norte do Danúbio, Aureliano retirou a população romana da região e reorganizou os territórios ao sul do rio. Surgiram duas novas unidades: a Dácia Ripense, com capital em Ratiaria, e a Dácia Mediterrânea, cuja principal cidade era Serdica. A mudança reforçou o peso administrativo de Sofia no interior dos Bálcãs.
“Meu Roma é Serdica”
No século IV, Serdica alcançou uma de suas fases de maior prosperidade. Constantino, o Grande, nascido em Naissus, atual Niš, teve forte ligação com a cidade; a tradição preservou a frase segundo a qual teria dito: “Serdica é minha Roma”. O historiador Amiano Marcelino chamou-a de cidade ampla e nobre.
Em 343, Serdica recebeu um importante concílio cristão, com a presença de cerca de 170 bispos vindos de diferentes partes do mundo cristão. Constantino também mandou cunhar moedas de ouro na cidade. Esse brilho, porém, foi atingido pelas invasões de godos e hunos. Entre 441 e 447, Átila saqueou e incendiou Serdica, que não recuperou imediatamente a posição anterior.
O imperador Justiniano I restaurou parte das fortificações destruídas e o período ficou associado também à grande basílica de Santa Sofia. No início do século VII, novas invasões eslavas, antas e ávaras levaram membros das elites locais a procurar refúgio em Tessalônica.
809: a entrada de Serdica no Estado búlgaro
O ano de 809 marca uma virada: Serdica caiu nas mãos do cã Krum. Nos reinados seguintes, com a expansão do Estado búlgaro sobre grande parte da Macedônia, a cidade passou a ocupar posição central. O nome Serdica foi gradualmente substituído por Sredets, enquanto autores gregos usavam formas como Triaditsa e escritores ocidentais registravam variantes como Stralis, Astralis e Stralitsa.
Sredets permaneceu em uso até o fim do século XIV. Em 972, o patriarca búlgaro Damião transferiu para lá sua sede, sinal do peso político e religioso da cidade. Depois de longas guerras, o imperador bizantino Basílio II incorporou Sredets ao Império Bizantino, mas a região continuou marcada por rebeliões e invasões.
Rebeliões, pechenegues e a tomada das relíquias de São João de Rila
Em 1040, uma grande revolta búlgara atingiu Niš, Skopje, Macedônia e também a região de Sredets. Boyana era considerada uma fortaleza búlgara e foi conquistada pelo imperador Miguel, fato ligado à queda da cidade. Poucos anos depois, em 1048, cerca de 80 mil pechenegues invadiram terras búlgaras, transformando a região em cenário de combates e saques, especialmente nos arredores de Vitosha e Velbazhd, atual Kyustendil.
Nova invasão pechenegue ocorreu em 1078, desta vez com parte da população local, paulicianos e bogomilos apoiando os invasores contra o domínio bizantino. Um século depois, em 1183, forças húngaras e sérvias entraram na região, saquearam Sredets e destruíram muralhas. Os húngaros levaram da cidade as relíquias de São João de Rila para Esztergom, no Danúbio. Mais tarde, as relíquias retornariam.
Frederico Barbarossa, Asen e o Segundo Império Búlgaro
Sredets também teve de suportar a passagem dos cruzados de Frederico Barbarossa, que avançavam em direção aos territórios bizantinos. Em 1194, Asen conquistou a cidade e a integrou à Bulgária novamente independente. Para reforçar a dignidade de Tarnovo como nova capital, no ano seguinte transferiu para lá o corpo de São João de Rila, instalado numa igreja em Trapezitsa.
Dentro do Segundo Império Búlgaro, Sredets viveu cerca de dois séculos de relativa prosperidade até a chegada dos otomanos. Foi nesse período que o nome Sofia ganhou terreno.
Como Sredets passou a ser chamada de Sofia
A basílica de Santa Sofia, situada num ponto elevado da cidadela, provavelmente contribuiu para a difusão do nome. Primeiro a região ao redor do templo e depois a própria cidade passaram a ser associadas a Sofia. Um documento do czar Ivan Shishman para o Mosteiro de Dragalev já usa o nome, e uma nota de Dubrovnik de 1376 registra a cidade como Sofia.
O novo nome acabou prevalecendo durante a época otomana. Sredets continuou aparecendo em algumas obras literárias búlgaras, mas deixou de ser a designação cotidiana dominante.
Os 27 portões e as 1.700 torres da fortaleza
Após a morte de Ivan Alexandre, em 1371, seus filhos Sratsimir e Shishman disputaram o controle de Sredets. Sratsimir chegou a ocupar a cidade, mas Shishman a retomou e a vinculou novamente ao reino de Tarnovo. Para os autores de 1932, essas disputas internas ajudaram a acelerar a fragmentação política que precedeu a conquista otomana.
As fontes divergem sobre a data exata da queda: algumas apontam 1382, outras 1386. O texto preserva uma descrição impressionante da fortaleza de Sofia, comparada em extensão a Constantinopla. Sua circunferência seria de 47 mil passos, com 27 portões, 1.700 torres e 70 mil ameias. A Sofia moderna, dizia o artigo, ocuparia apenas uma parte daquele espaço fortificado.
Mesmo que números medievais desse tipo devam ser lidos dentro da tradição documental de sua época, eles mostram como a imagem de Sofia antiga ainda era percebida em 1932: não como uma pequena antecessora da capital moderna, mas como uma cidade que atravessara sucessivas civilizações, nomes e sistemas políticos muito antes de se tornar o centro do Estado búlgaro contemporâneo.