A Rua Tsar Simeon atravessa Sofia de leste a oeste e, ao contrário de muitas outras vias da capital búlgara, conservou praticamente o mesmo nome ao longo de sua longa história. Para quem cresceu em seus quarteirões, porém, ela não é apenas uma linha no mapa: é uma sequência de padarias, tavernas, cafés, oficinas, cinemas, casas de famílias conhecidas e pequenos episódios que desapareceram com a transformação da cidade.

Uma rua secular que preservou o nome e a memória de Sofia

A história da Rua Tsar Simeon se confunde com a própria história de Serdica, Sredets, Triyaditsa e Sofia. A rua atravessa a cidade desde os bairros orientais até as proximidades de Zaharna Fabrika, a “Fábrica de Açúcar”, região que os antigos moradores também chamavam de sheker mahala. Em seu trajeto, passa por zonas de forte identidade local, como Konyovitsa, bairro associado no imaginário do autor a uma tradição de gente combativa e independente.

Ela nunca foi a avenida de vitrines sofisticadas ou das residências mais luxuosas. O memorialista a descreve como a rua do padeiro Bai Bore, da loja de miúdos de Nikushev, da taverna Devette Magareta e de centenas de pequenos comércios que serviam à vida cotidiana. É justamente essa ausência de monumentalidade que torna o relato tão rico: a rua aparece vista de dentro, por alguém que conheceu seus comerciantes, famílias e esquinas.

Da Igreja de Santa Parashkeva à Rua Rakovska

Seguindo de leste para oeste, um dos primeiros grandes marcos é a Igreja de Santa Parashkeva, na esquina com a Rua Georgi Sava Rakovski. Ela figura entre as maiores igrejas de Sofia e, durante o período do Reino da Bulgária, recebeu casamentos de generais, coronéis, ministros, industriais e intelectuais conhecidos.

No início dos anos 1990, a igreja também ficou ligada a episódios bem diferentes. O prédio foi usado como sede de um sínodo alternativo e ali funcionou o escritório de um grupo que pretendia criar aquilo que anunciava como a “primeira rádio cristã”. Havia até planos de convidar Madonna para a inauguração. O grupo almoçava diariamente no Café-Club Lido, na Rua Rakovska nº 91, restaurante que na época pertencia ao próprio memorialista. A rádio nunca saiu do papel e, como ele observa com ironia, Madonna tampouco apareceu para almoçar.

Na esquina oposta funcionou um clube de jogos de azar que, no começo da década de 1990, foi palco de um tiroteio entre grupos rivais. Perto dali morava Arman Levy, amigo do autor, cuja irmã era a arquiteta responsável pela restauração da pequena igreja de Santa Petka Samardzhiyska, na Praça Sveta Nedelya. Duas quadras a oeste, na esquina com a Rua Budapesta, vivia Nikolay Ruski, colega de escola do memorialista e jogador da seleção búlgara de vôlei. No mesmo edifício, no nº 52, morava Garbis Menzildzhiyan, grande amigo do pai do autor e homem que, segundo a tradição familiar, teria inspirado o personagem Garabed de piadas armênias. Do outro lado da rua, no nº 54, ficava a famosa taverna de bairro Bunkera.

Gambrinus: música ao vivo, cerveja e uma instituição perdida

Depois de cruzar a Rua Serdika, o passeio chega a um dos estabelecimentos mais lembrados do texto: o restaurante Gambrinus. Do lado direito da rua vinha o som de músicas urbanas antigas, acompanhado do cheiro de almôndegas, kebapcheta e bifes na grelha. Rakia, vinho e cerveja gelada circulavam entre as mesas.

O Gambrinus ocupava dois andares e, segundo o autor, permanecia lotado até a última cadeira. Havia música ao vivo, cantores e cantoras e garçons que circulavam rapidamente com pratos carregados nas duas mãos. Para o memorialista, era uma verdadeira marca de Sofia e poderia ter sobrevivido como atração da cidade, comparável às cervejarias históricas de Praga que ainda recebem moradores e turistas.

O Teatro Odeon, apagado pelo bombardeio de 10 de janeiro de 1944

A poucos passos do Gambrinus funcionou o primeiro serviço de conserto de televisores da cidade, instalado depois em um edifício alto de arquitetura socialista. O local, porém, tinha uma história anterior muito mais importante: ali se erguia o Teatro Odeon.

No palco do Odeon deram os primeiros passos grandes nomes da opereta búlgara, entre eles Angel Sladkarov, Mimi Balkanska, Asen Ruskov, Matyo e Mimi Makedonski e Tinka Kraeva. Ali também foram ouvidos os primeiros acordes de operetas de maestro Yosif Tsankov, como Prodadena lyubov, Drazh se, Zhuzhi e Maya.

Outra artista associada ao teatro foi Nadya Nozharova, que teria uma trajetória incomum: estrela de opereta, condessa, milionária e filantropa reconhecida por diversas instituições. O edifício do Odeon desapareceu de forma violenta. Em 10 de janeiro de 1944, durante um dos bombardeios mais intensos de Sofia, foi atingido e destruído até as fundações.

Padarias, café torrado e alfaiates entre Maria Luiza e Knyaz Boris

Depois de atravessar o Boulevard Maria Luiza, antigo Georgi Dimitrov, o autor entra na parte da Rua Tsar Simeon que conhecia melhor. No nº 86 moravam parentes próximos; do outro lado, no nº 63, vivia a família de uma tia de Anahid Tsoneva-Tacheva.

Perto da Rua Knyaz Boris, no nº 94, ficava a casa da família Yakovchev. Grigor Evstatiev Yakovchev e três irmãos haviam migrado da Macedônia. Cada família ocupava um andar e o quarto irmão morava numa casa no pátio. Os irmãos mantinham uma padaria famosa pelos gevretsi com gergelim. Mesmo depois da nacionalização, o forno continuou funcionando durante anos e permaneceu lembrado por crianças e adultos. Ao lado havia outra loja da família, ocupada depois de 1946 por uma administração farmacêutica.

Um vizinho dos Yakovchev era o cantor Dushko Georgiev, conhecido durante a Segunda Guerra Mundial por interpretar uma canção política ligada ao Eixo. Depois de setembro de 1944, foi preso e desapareceu sem deixar vestígios.

Na calçada oposta, o cheiro de café recém-torrado vinha da loja de Kayane e Karnik Derderyan. Ali o café era torrado e moído na hora. Kayane, atriz amadora do teatro armênio de Sofia, media o produto diante dos clientes. A família se tornou conhecida também por uma comemoração extravagante de bodas de ouro realizada no restaurante do Hotel Sofia, ocasião em que, segundo relatos, Kayane usou um verdadeiro vestido de noiva mesmo já tendo mais de setenta anos.

Seguindo pela rua, apareciam um grande mercado de alimentos, a barbearia de Bai Aram Agopyan e o ateliê do alfaiate Yosif Varadinov. O autor conhecia bem Yosif, que morava na Rua Bratya Miladinovi nº 72 com a esposa Ada, uma italiana elegante, e os filhos. Era um alfaiate de moda muito procurado e fez vários ternos e casacos para o memorialista.

O Mercado das Mulheres e a confeitaria Rosa

A caminhada chega então à Rua Dragoman, atual Stefan Stambolov, onde se estende o Mercado das Mulheres. Na esquina oriental havia uma taverna. Depois de 1947, no lado sul, funcionou a confeitaria Rosa. As crianças do bairro iam ali beber boza gelada e comer tulumbas e bolos frescos produzidos pela cooperativa de confeitaria Hristo Nikov.

Mais tarde o ponto foi ocupado por uma peixaria. Na esquina oeste ficava a grande farmácia de Ikonomov, onde os moradores não apenas compravam remédios: o farmacêutico também fazia curativos em crianças machucadas. A farmácia sobreviveu sob o nome São Nicolau.

O chapeleiro Bai Georgi e a oficina de bicicletas de Galabov

A poucos metros da farmácia ficava a oficina de chapéus de Bai Georgi. Ele limpava e passava antigos chapéus-coco e chapéus femininos, vendia bonés e modelos de fabricação própria e aceitava encomendas feitas com tecido trazido pelo cliente. Quando bonés de veludo cotelê entraram na moda entre os jovens de Sofia na primeira metade dos anos 1950, sua oficina viveu um período de grande movimento.

Seu vizinho Galabov consertava bicicletas. Raios tortos, pneus furados e aros deformados levavam os meninos do bairro até a oficina. Galabov também alugava bicicletas.

O “Gabrovetza”, a padaria a vapor e o iogurte de Gosho

Do outro lado ficava a loja do comerciante conhecido como “o homem de Gabrovo”, descrito como um senhor rechonchudo, de cabeça brilhante e bochechas cheias. Vendia delicatessen, embutidos, salsichas frescas, halva de tahine com chocolate, conservas de peixe e tarama. Quando alguém comprava salsichas, ele costumava acrescentar ao pacote uma pequena porção de mostarda aromática como presente.

Ao lado surgiu uma cooperativa residencial moderna, recuada alguns metros em relação ao meio-fio. Sob o prédio abriu uma nova padaria cuja fornalha era aquecida a vapor, em vez de lenha. Por isso, alguns moradores a chamavam simplesmente de “padaria a vapor”.

Logo depois vinha a leiteria de Gosho. O memorialista nunca esqueceu o sabor do iogurte de ovelha fermentado em pequenas tigelas de porcelana. Era tão espesso que, quando a tigela era virada no prato, o iogurte mantinha o formato. Muitas décadas depois, ele encontrou por acaso uma mulher na Rua Tsar Simeon e reconheceu nela a filha de Gosho. A mulher ficou surpresa ao saber que alguém ainda se lembrava do pai — e do iogurte que ele vendera cerca de setenta e cinco anos antes.

A casa Grebenarov e a oficina de sapatos da família

Em frente à leiteria, no nº 112, estava a elegante casa da família Grebenarov. Mesmo décadas depois, o edifício ainda embelezava a rua, embora precisasse de restauração. No térreo havia duas lojas. Uma abrigava uma livraria; a outra, até 1948, era a oficina de sapatos do pai e dos tios do autor.

Ali eram fabricados os calçados vendidos numa loja da Rua Pirotska nº 10, além de pares feitos sob medida. O pai recebia as encomendas, desenhava os modelos e cortava as partes superiores. Um irmão montava o cabedal e os outros trabalhavam nas formas de madeira. Produziam sapatos masculinos e femininos. O próprio autor possuía formas moldadas para seus pés e continuou recebendo calçados feitos pelo pai mesmo depois do fechamento da loja.

Bratya Miladinovi, Devette Magareta e o terreno misterioso do nº 125

Na esquina com a Rua Bratya Miladinovi começava outro universo de memórias: duas tavernas, uma confeitaria sob a casa da família Dzhapunov, a mercearia do tio Nubar, a sapataria Tiger, a famosa oficina de funilaria Tishina, o ateliê do tio Asadur, uma loja de sopa de tripas ligada a um jogador do Levski e uma pequena quitanda administrada por Baba Mara.

Na esquina do Boulevard Hristo Botev havia um grande café armênio de Bai Khachig. Poucos passos adiante ficava a taverna Devette Magareta, “Os Nove Burros”. A placa mostrava nove burros e, sobre um décimo, o personagem Nasreddin Hodja.

Mais adiante, no nº 125, existia durante décadas um grande terreno vazio cercado por madeira, tomado por capim seco e aparentemente sem função. Quando criança, o autor decorou o endereço e o usava como resposta falsa quando fazia alguma travessura e um adulto ameaçava procurar seus pais.

Somente depois de 1989 ficou claro o significado do local: ali, segundo a tradição, São Nicolau de Sofia teria sido queimado pelos otomanos e ali estaria seu túmulo. O espaço passou a ser cuidado e recebeu uma capela.

Vladimir Dimitrov, a fábrica Pelikan e os campos de futebol escolares

Quando estudava na Escola Técnica Stalin, na antiga Rua Naycho Tsanov, o autor percorria diariamente a Rua Tsar Simeon. Entre as ruas Paisiy ou Strandzha, costumava encontrar um homem alto, magro e idoso, de barba comprida, roupas muito simples e expressão serena. Mesmo quem não o conhecia sentia vontade de cumprimentá-lo.

Era Vladimir Dimitrov-Maistora, um dos grandes pintores búlgaros. O memorialista se arrependeu por toda a vida de nunca ter parado para trocar algumas palavras com ele.

Perto dali aparecia um prédio amarelo, parcialmente pintado de azul, depois marcado com a inscrição Petrol. Era a antiga fábrica de tintas Pelikan, empresa alemã ligada à produção de canetas, tintas, borrachas e outros materiais de escrita.

Em frente ficava o acesso ao pátio da 3ª Escola Secundária Masculina. Além dos alunos da escola, jovens do bairro e estudantes técnicos usavam o enorme pátio para jogar futebol. Foi dali que saiu Choko Vasilev, jovem atacante que chegaria ao Slavia e à seleção nacional, mas morreria ainda muito novo após uma cirurgia de apendicite.

Santíssima Trindade, o bonde nº 3 e as casas construídas em uma noite

Antes de chegar ao fim da Rua Tsar Simeon, na região da Fábrica de Açúcar, o relato passa pelo Jardim da Santíssima Trindade e pela igreja de mesmo nome. Durante muitos anos, a área foi atendida pelo bonde nº 3, que ligava a Estação de Poduyane à região da Fábrica de Açúcar passando por vários pontos centrais de Sofia.

O bairro ao redor da igreja abrigava muitas pequenas casas de famílias refugiadas da Macedônia, que haviam chegado a Sofia depois da Revolta de Ilinden. Algumas dessas construções, conta o autor, eram erguidas em uma única noite. Pela interpretação popular das regras da época, se ao amanhecer a casa já tivesse telhado, a prefeitura não poderia simplesmente declará-la ilegal. Parentes, amigos e vizinhos então se reuniam para levantar quatro paredes e cobri-las antes que o dia começasse.

É assim que a Rua Tsar Simeon aparece nessas memórias: não como uma avenida monumental, mas como uma linha contínua de pessoas, cheiros, ofícios e histórias. Padarias, cafés, cinemas, igrejas, oficinas e famílias desapareceram ou mudaram; a rua, porém, continua atravessando Sofia e conservando algo da cidade que existia antes das grandes transformações do século XX.